Damares Alves denuncia ataques virtuais

© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Damares Alves denuncia ataques virtuais e expõe o problema que Flávio Bolsonaro ainda não soube enfrentar dentro do próprio campo
A senadora Damares Alves, figura de credenciais bolsonaristas inquestionáveis, subiu à tribuna do Senado para denunciar ataques virtuais criminosos contra ela e sua família. "Simulam imagens que estão empalando a minha filha, que estão decapitando ela, que estão me decapitando", declarou. Damares relatou que Michelle Bolsonaro sofre da mesma tática, praticada pela mesma rede: "As imagens, inteligência artificial, a manipulação de imagens, mas atacaram a filha dela também. Duvidam, inclusive, que a menina seja filha do ex-presidente".
A senadora ainda cobrou os aliados que assistiram em silêncio: "Se vocês silenciam diante do ataque à violência política contra a mulher, vocês são coniventes." O episódio expõe um padrão que toda seita política reproduz e ao qual Flávio Bolsonaro precisa prestar atenção com urgência. Sua tentativa tímida e morna de se afastar desse grupo apenas revela que ele ainda não dimensionou o tamanho do problema.
O funcionamento de movimentos sectários segue uma lógica invariável: primeiro, define-se quem é "puro"; depois, caça-se o "impuro", o "traidor" ou o "isentão". O inimigo externo importa menos do que o herege interno, o apóstata, porque o dissidente ameaça o controle da tribo. A guilhotina jacobina cortou mais pescoços de companheiros, incluindo o próprio Robespierre, do que de nobres do Antigo Regime. Lênin transformou a perseguição interna em doutrina e a batizou de "centralismo democrático", um eufemismo com ares de deboche, já que de democrático não tem nada. Fixada a linha partidária, a minoria deve calar e obedecer. Quem manifesta qualquer dúvida ou discordância, dizia o manual bolchevique, "renuncia à sua condição de membro do partido".
O dissidente não é convencido. É expurgado. Para as mentes sectárias e histéricas, não existe questionamento, pensamento livre nem debate, apenas obediência cega ou traição ao movimento. O wokismo é a versão pós-moderna dessa mesma cartilha: divide o mundo em opressores e oprimidos, trata quem discorda como inimigo e substitui o debate por perseguição. Cancela, patrulha, exige que cada um prove sua pureza a cada frase. Quem erra o script é execrado publicamente, num ritual de humilhação que os chineses de Mao já praticavam e batizavam de "sessão de linchamento".
A chamada "direita woke" pegou esse mesmo método e apenas virou a chave. Damares é mais uma na lista de integrantes do núcleo duro do bolsonarismo perseguidos por esse grupo, composto por mentes infantilizadas, radicalizadas, intolerantes, que seguem as táticas da esquerda identitária e do que já foi definido como "alt-right" ou "direita alternativa". Nos Estados Unidos, Donald Trump enfrenta uma divisão fratricida no movimento Maga, representada por oportunistas como Nick Fuentes, Alex Jones, Tucker Carlson, Candace Owens, Milo Yiannopoulos e Megyn Kelly, entre outros.
Essa gangue de aproveitadores já influencia parte da direita brasileira, especialmente aquela autoexilada nos EUA e fisicamente mais próxima deles. Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira, alguns dos nomes mais populares do bolsonarismo, são atacados com ferocidade nas redes sociais por influenciadores, bots e seguidores que disseminam mentiras repetidas mil vezes com a esperança de que se tornem "verdade", tudo impulsionado pelo "ragebait" e por algoritmos que premiam a gritaria. As acusações são, em geral, ridículas, fúteis e muitas vezes totalmente fabricadas. Essa mentalidade divisiva e persecutória é um péssimo negócio eleitoral, especialmente em campanhas majoritárias. Quem adota essa postura sabe disso e não se importa.