Flávio Bolsonaro lança candidatura sob pressão e com alianças em risco

Bruno Peres/Agência Brasil
Flávio Bolsonaro é oficializado na convenção do PL sem vice definido, com alianças frágeis e sob pressão do caso Banco Master
Sete meses após ser escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como herdeiro político, Flávio Bolsonaro será oficializado neste sábado (25/7) como candidato do PL à Presidência da República.
A convenção do partido, marcada para um espaço de eventos na Arena Pacaembu, em São Paulo, representa o pontapé inicial da campanha do senador, que chega ao evento pressionado pelo isolamento político, sem candidato a vice definido e tentando reverter uma sequência de crises que dificultou a formação de alianças.
Apesar de meses de negociações, Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu atrair partidos considerados estratégicos para ampliar o tempo de propaganda eleitoral, fortalecer a estrutura da campanha e aumentar a competitividade da chapa.
A dificuldade para conquistar aliados também impede, até o momento, a definição do candidato a vice-presidente. O PL trata a vaga como principal moeda de negociação para fechar alianças, sendo o Republicanos um dos alvos, legenda da ex-presidente da Caixa Daniella Marques, apontada como favorita para ocupar o posto.
Nos bastidores, dirigentes de siglas do Centrão avaliam que o senador não conseguiu ampliar o diálogo com o eleitorado moderado e segue restrito ao bolsonarismo.
Também pesou nas conversas a revelação de que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, episódio que levantou dúvidas sobre os possíveis desdobramentos do caso.
A tendência, hoje, é que as principais legendas do Centrão permaneçam neutras na disputa presidencial. Se esse cenário se confirmar, Flávio disputará a eleição em uma chapa formada apenas pelo PL, hipótese vista como desfavorável por dirigentes do partido.
Mesmo assim, a direção do partido afirma que insistirá nas negociações até o fim do período das convenções, em 5 de agosto.
Tentando driblar o isolamento, a convenção contará com a presença do presidente da Argentina, Javier Milei, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A participação do governador ocorre em meio ao desgaste da relação entre os dois. Flávio Bolsonaro tem manifestado a aliados insatisfação com o envolvimento considerado tímido de Tarcísio na campanha.
Antes de o senador ser escolhido candidato, o governador era visto pelo Centrão como o nome preferido para suceder Jair Bolsonaro na disputa presidencial.
Na tentativa de estreitar essa relação e fortalecer a campanha no maior colégio eleitoral do país, Flávio transferiu a estrutura eleitoral para São Paulo.
Outra aposta será reforçar o diálogo com o eleitorado feminino. A esposa do senador, Fernanda Bolsonaro, deverá discursar na convenção e, nas próximas semanas, percorrerá o país ao lado de Daniella Marques para apresentar propostas voltadas às mulheres, segmento considerado um dos principais desafios da candidatura.
A iniciativa ocorre após a crise pública entre Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. A madrasta afirmou ter sido "destratada" pelo enteado, rompimento que preocupou aliados por afastar uma das principais lideranças femininas do bolsonarismo em um momento considerado decisivo para a campanha.
Nos últimos dias, porém, houve um movimento de reaproximação. Na quinta-feira (23/7), Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo pedindo desculpas, elogiando Michelle e convidando-a para participar da campanha.
A ex-primeira-dama respondeu pouco depois, afirmou que aceitava o pedido de desculpas e sinalizou uma reaproximação, gesto comemorado pelo núcleo da campanha.
Mesmo assim, Michelle não deve participar presencialmente da convenção. Ela ainda avalia se gravará um vídeo para ser exibido durante o evento.
A expectativa é que Flávio Bolsonaro a cite durante o discurso como um gesto de unidade do campo bolsonarista.
Além de Flávio Bolsonaro, devem discursar na convenção Javier Milei, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, e outras lideranças da legenda.
O primeiro discurso de Flávio Bolsonaro como candidato oficializado deve prestar homenagens ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado.
Segundo interlocutores, o próprio senador escreveu o discurso. A expectativa é que ele reforce a defesa da união da oposição e apresente uma mensagem voltada para o futuro, em linha semelhante à adotada nas primeiras peças publicitárias da campanha.
Embora mantenha a associação com o pai, o senador pretende ampliar os acenos ao centro e se apresentar como o "candidato a presidente do Brasil do futuro".
Em um dos vídeos divulgados pela campanha, o senador afirma que o país enfrenta "muitos desafios", mas diz que "a gente não vai conseguir construir o Brasil do futuro repetindo os erros do passado".
O discurso também deve conter críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato à reeleição e líder nas pesquisas de intenção de voto, com a segurança pública como uma das principais bandeiras.
Aliados também esperam que a convenção marque uma mudança de postura do senador. Nos bastidores, dirigentes do PL defendem que Flávio Bolsonaro reduza o tom de confronto e concentre o discurso em temas do cotidiano, como a economia, em uma estratégia para ampliar o desempenho junto a eleitores moderados e independentes.
A campanha também aposta no evento para mobilizar a militância, cuja participação ainda é considerada inferior à registrada nas campanhas de Jair Bolsonaro.
Para reforçar a imagem de unidade, os organizadores orientaram os participantes a usarem roupas de cor azul.
Nas redes sociais, será lançada uma plataforma para cadastrar apoiadores e distribuir conteúdos de mobilização, em formato semelhante ao adotado pelo PT.
Apesar de todo o esforço, o isolamento político deverá ficar evidente na própria convenção. Os presidentes do União Brasil, Antonio Rueda, e do PP, Ciro Nogueira, não devem comparecer ao evento.
Os dois comandam a federação União Progressista, considerada, até poucos meses atrás, a principal aposta da campanha para fortalecer o palanque de Flávio Bolsonaro.
Embora União Brasil e PP tenham sinalizado inicialmente disposição para apoiar o senador, a relação se deteriorou nos últimos meses.
Ciro Nogueira reclamou a interlocutores da postura adotada por Flávio Bolsonaro após a operação da Polícia Federal que o teve como alvo por suspeitas de fraudes relacionadas ao Banco Master.
Segundo integrantes do PP, Ciro esperava uma demonstração pública de solidariedade do presidenciável.
O desgaste levou o dirigente a comunicar a Flávio, nesta semana, que a tendência da federação é permanecer neutra.
Além da dificuldade para atrair aliados, a campanha acompanha com preocupação os desdobramentos do caso Banco Master.
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a abertura de um inquérito para investigar repasses do banqueiro Daniel Vorcaro à produção do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, recolocou o episódio no centro do noticiário e ampliou o receio de novos desgastes durante a disputa pelo Palácio do Planalto.
Aliados temem que a investigação revele novos elementos sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, prolongando uma crise que a campanha tenta superar.
Em transmissão ao vivo na quinta-feira, o senador afirmou ser alvo de perseguição política e disse existir uma ação "orquestrada" para desgastá-lo, afirmando ter se tornado vítima do mesmo "modus operandi" adotado contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro também minimizou o temor de aliados diante da investigação. "Será que vai acontecer alguma coisa?". Gente, não vai acontecer nada, e todas as mentiras que me acusarem a gente vai enfrentar e vai destruir, vai botar por água abaixo como sempre foi com o Bolsonaro, vai ser comigo também", disse.