Fifa divide opiniões com plano de abrir Copa do Mundo para investidores privados

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Uefa e Andy Burnham criticam proposta da Fifa de abrir competições, incluindo a Copa do Mundo, a investidores privados
A entidade que governa o futebol europeu, a Uefa, e o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, reagiram com críticas contundentes à proposta da Fifa de abrir suas competições, incluindo a Copa do Mundo, para investidores privados. A iniciativa, divulgada na terça-feira (28/7), prevê a criação de uma subsidiária comercial e a captação de mais de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,3 bilhões) em financiamento para o desenvolvimento do futebol mundial.
A Fifa publicou um longo comunicado detalhando os planos, nos quais afirma que "convidará terceiros a fazer investimentos minoritários, sem poder de controle" em uma nova subsidiária chamada Fifa Forward Enterprise (FFE), com o objetivo de "consolidar" suas operações comerciais e de eventos. A proposta ainda precisa ser aprovada pelas 211 entidades filiadas à Fifa, mas já gerou reações imediatas de diferentes setores do futebol.
Caso o plano receba o aval das entidades filiadas, a Fifa indica que a empresa Thrive Eternal deverá liderar o grupo de investidores proposto para a FFE. A Thrive é uma empresa americana de capital de risco fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A informação foi publicada inicialmente pelos jornais britânicos "Financial Times" e "The Times", que afirmaram que os planos poderiam render ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, dezenas de milhões de libras. Fontes da Fifa disseram à BBC Sport que não houve discussões sobre a possibilidade de Infantino, ou qualquer outra pessoa, tornar-se diretor-executivo da FFE.
Em seu comunicado, a entidade afirmou que Infantino e o restante da organização "têm o dever" de controlar o desenvolvimento do projeto, sem explicar precisamente o que isso significa nem qual será a natureza específica da participação de Infantino. Como parte da proposta, a Fifa afirma que todas as entidades filiadas poderão ter acesso a até US$ 20 milhões (cerca de R$ 102,5 milhões) em um "aporte único de capital" para financiar projetos de desenvolvimento. Infantino defendeu a iniciativa afirmando que todos os países deveriam se beneficiar da riqueza gerada pelo futebol. "Alguns setores do futebol transformaram essa popularidade em um valor comercial extraordinário, e celebramos esse sucesso e queremos que ele continue, porque impulsiona todo o esporte", disse Infantino. "Nosso trabalho é garantir que o restante do futebol cresça junto: a Fifa existe para apoiar o desenvolvimento sustentável e inclusivo em todos os cantos do mundo."
A Uefa, no entanto, foi direta ao afirmar que as propostas "ultrapassam um limite". A entidade europeia considera que o anúncio representa um passo além do aceitável e levanta a possibilidade de uma nova expansão das competições organizadas pela Fifa, tanto em número de participantes quanto em frequência, o que poderia ameaçar os próprios torneios da Uefa. "Isso ultrapassa um limite que as entidades responsáveis pela administração do futebol jamais deveriam cruzar", afirmou a Uefa.
"A Uefa trata essa questão com extrema seriedade. Todas as associações nacionais de futebol também deveriam fazê-lo. O mesmo vale para todos os envolvidos que se preocupam com o futuro do esporte." A entidade acrescentou: "A essência e a governança do futebol não são ativos para serem negociados, especialmente quando não há nenhuma transparência sobre quem obterá ganhos financeiros. Nenhum de nós é dono do futebol. A Fifa não tem o direito de vendê-lo."
Andy Burnham foi igualmente enfático ao afirmar que levar a ideia adiante significaria que a Fifa havia "se vendido". Ele escreveu na rede social X: "Quero dizer isto de forma muito direta. O futebol não pertence a investidores. Ele pertence às pessoas que lotam as arquibancadas e que ficam à beira do campo semana após semana, faça chuva ou faça sol." "A Copa do Mundo não é um produto. É a maior competição do esporte mundial, e nunca pertenceu a ninguém para que pudesse ser vendida. Apresente o acordo como quiser. Depois que você vende uma parte dela, você se vendeu", acrescentou Burnham. "O futebol pertence aos torcedores. Sempre pertenceu e sempre pertencerá." A Federação Inglesa de Futebol também se manifestou, afirmando que não tinha conhecimento dos planos da Fifa até então.
A Fifa argumenta que seu plano é semelhante ao modelo adotado por entidades que administram outros esportes. Em 2018, a Premiership Rugby anunciou uma parceria com a CVC Capital Partners, empresa de private equity. Mas o desconforto vai além da questão financeira: trata-se de uma disputa pelo controle do futebol mundial. A Fifa afirma que manterá o controle da FFE "e a autoridade exclusiva sobre a governança do futebol, as competições, o calendário internacional de partidas e todas as decisões regulatórias e esportivas".
Ainda assim, um alto executivo do futebol inglês disse à BBC Sport, sob condição de anonimato, que o anúncio era "a notícia mais relevante desde o projeto da Superliga Europeia", e levantava o mesmo número de preocupações. Kieran Maguire, especialista em finanças do futebol, disse à BBC Sport que as propostas representam "uma oportunidade para a Fifa gerar ainda mais dinheiro" e que há "muita gente interessada no futebol querendo uma fatia desse negócio". Maguire acrescentou que, caso a FFE seja criada, é provável que aumente a pressão pela realização de uma Copa do Mundo com 64 seleções e disputada a cada dois anos, porque a organização "terá de gerar lucro para satisfazer os investidores".
Alguns também acreditam que os torneios poderão atingir uma dimensão tão grande que acabarão sendo disputados durante o inverno, aumentando ainda mais a pressão sobre um calendário já sobrecarregado. Embora US$ 20 milhões não sejam uma quantia significativa no futebol inglês, para muitos países ao redor do mundo esse valor é considerável, o que indica que a proposta deverá receber apoio de parte das federações. O tema deve ser discutido na próxima reunião do Conselho da Fifa, no segundo semestre, e também durante a Copa Intercontinental da Fifa, em dezembro. A proposta poderá ser submetida à votação dos 211 membros durante o Congresso da entidade, no Marrocos, em março. Ainda não se sabe como as diferentes partes envolvidas — associações, ligas, clubes e jogadores — reagirão ao plano.