Sargento suspeito de matar esposa capitã foi investigado por violência doméstica

Eduardo Abner de Oliveira levou Michelle Leão Azevedo sem vida para o hospital - Foto: Reprodução
Sargento preso por suspeita de matar a esposa capitã já foi investigado por violência doméstica contra outras mulheres, sem indiciamento
Eduardo Abner Pereira de Oliveira, sargento preso sob suspeita de matar a esposa, a capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo, em Belo Horizonte, já havia sido investigado por violência doméstica contra pelo menos duas mulheres antes do crime. Todas as investigações anteriores foram arquivadas pela polícia sem que o policial fosse indiciado. Duas mulheres registraram boletins de ocorrência contra Eduardo Abner em três ocasiões distintas. A lista de investigações consta no histórico criminal do policial, ao qual o UOL teve acesso. Uma das vítimas fez a primeira queixa contra o sargento em março de 2016, solicitando uma medida protetiva. Em setembro do mesmo ano, ela voltou a procurar a polícia alegando que ele havia violado a medida protetiva e a ameaçado.
Ainda antes, em fevereiro de 2014, outra mulher já havia registrado um boletim de ocorrência contra o policial por lesão corporal e ameaça, sem solicitar medida protetiva. Os inquéritos de violência doméstica abertos contra Eduardo Abner foram arquivados definitivamente por falta de denúncia das vítimas à Justiça, com os arquivamentos ocorrendo em 2018 e 2019. A vítima que havia pedido a medida protetiva desistiu do documento em 2019, três anos após o registro da denúncia. As identidades das vítimas serão preservadas, e nenhuma delas era a capitã morta.
Eduardo Abner ingressou na PM em 2008, mas foi expulso da corporação no ano seguinte após um processo administrativo. A punição se deu porque ele omitiu, no formulário de ingresso, informações sobre seu histórico: um ato infracional por porte ilegal de arma cometido na adolescência, pelo qual cumpriu seis meses de prestação de serviço à comunidade. Por ser menor de idade à época, o PM era inimputável, e o delito não constava como crime em seu histórico. A justificativa oficial para a expulsão foi a "ausência de preenchimento do requisito de idoneidade moral e social".
Em 2014, um desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais reverteu a decisão e reintegrou Eduardo Abner à corporação, determinando ainda que todos os salários não pagos durante o período de afastamento fossem creditados em sua conta com correção monetária. Além dos casos de violência doméstica, o nome do sargento aparece em outras ações judiciais, a maioria arquivada após acordos. Em 2018, Eduardo Abner foi processado por um homem após uma briga generalizada em um condomínio de Belo Horizonte, onde o PM teria participado de uma confusão na área de lazer do prédio com um grupo de amigos. O autor da ação alegou ter precisado passar por cirurgias reparadoras no rosto e ter ficado com cicatrizes, pedindo R$ 15 mil em indenização por danos materiais, estéticos e morais. O processo foi encerrado em 2026, com a Justiça negando o pedido por falta de comprovação da autoria. Em 2023, uma investigação foi aberta para apurar se o policial havia provocado um acidente de trânsito dirigindo embriagado e fugido do local. O processo foi arquivado em 2024 após Eduardo Abner fechar um acordo e se comprometer a participar de um grupo reflexivo sobre trânsito.
A capitã Michele Leão Azevedo foi levada ao Hospital Odilon Behrens pelo marido, Eduardo Abner, na noite de segunda-feira. A morte da mulher foi constatada pela equipe médica, que acionou a polícia. A primeira versão apresentada pelo sargento aos médicos foi de que a companheira havia caído da escada. No entanto, os profissionais de saúde observaram sinais de violência pelo corpo dela e acionaram as autoridades, que prenderam o suspeito ainda na unidade hospitalar. Em depoimento, Eduardo Abner alegou que a companheira havia recusado atendimento médico logo após a queda e que os dois dormiram.
Segundo ele, horas depois percebeu que Michele não respondia a estímulos, o que o levou a levá-la ao hospital. Os médicos, porém, relataram à polícia sinais de que a vítima havia morrido de quatro a seis horas antes de dar entrada no Odilon Behrens. Um vídeo obtido pela polícia mostra o sargento carregando o corpo da vítima no prédio onde moravam e colocando-o no carro na garagem. Eduardo Abner foi preso em flagrante pela "pluralidade de lesões no corpo da vítima", segundo a Polícia Civil. Entre as lesões estavam traumatismo craniano, ferimentos nas pernas, marcas compatíveis com chicotadas e uma "lesão muito contundente na face da vítima". O homem também alegou ter tido relação sexual consensual com prática de agressões físicas, que, segundo ele, era comum entre os dois, e afirmou que ambos haviam participado de uma confraternização com bebidas alcoólicas e ecstasy momentos antes.
Ainda no hospital, Eduardo Abner descartou uma cartela de 18 comprimidos de ecstasy em uma lixeira. O flagra foi feito por um tenente acionado para acompanhar a ocorrência, para quem o suspeito havia pedido permissão para ir ao banheiro. A defesa do sargento, representada pelo advogado Gustavo Nepomuceno, afirmou em nota que é imprescindível aguardar a conclusão das investigações e dos laudos periciais, argumentando que se deve evitar "qualquer julgamento precipitado" e que todas as circunstâncias serão devidamente esclarecidas pelas autoridades competentes.
O advogado também informou que não vai se manifestar sobre outros procedimentos do histórico criminal do policial. A Justiça de Minas Gerais converteu a prisão de Eduardo Abner em preventiva, com a justificativa de que a manutenção da prisão garantiria a "ordem pública". Denúncias de violência doméstica podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no exterior, de forma gratuita. O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico. Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99656-5008, pelo Disque 100, pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil ou pela página da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH). Vítimas em situação de risco podem solicitar medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha.