Deborah Colker estreia Remix em BH

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Deborah Colker traz "Remix" a Belo Horizonte reunindo cenas de quatro espetáculos icônicos em meio a um momento de luto e superação pessoal.
Há quem volte ao passado por nostalgia. Deborah Colker, vivendo um momento pessoal turbulento, voltou porque precisava olhar para dentro. Ao decidir revisitar mais de três décadas de história da companhia que leva seu nome, a coreógrafa não buscava apenas remontar coreografias que marcaram sua trajetória. Algo maior estava em jogo: um reencontro consigo mesma e uma tentativa de curar o incurável. O resultado desse olhar retrospectivo, mas também inédito, ganhou forma em "Remix", espetáculo que estreia em Belo Horizonte nesta sexta-feira (31/7), no Grande Teatro do Sesc Palladium. A montagem reúne cenas de quatro trabalhos emblemáticos da companhia — "Vulcão" (1994), "Rota" (1997), "4x4" (2002) e "Belle" (2014) — em uma dramaturgia inédita que costura diferentes fases do grupo.
A ideia de "Remix" surgiu em 2025, quando Deborah Colker recebeu o título de Cidadã Honorária de Mesquita, cidade da Baixada Fluminense. Na cerimônia, uma exposição fotográfica reunia uma retrospectiva da trajetória da coreógrafa, e crianças que se dedicam à dança fizeram uma apresentação inspirada nos espetáculos da Companhia. Naquele momento, houve um lampejo: as crianças nunca haviam visto aquelas coreografias ao vivo. Sequer eram nascidas. Aquilo tocou Deborah de maneira profunda e revelou a dimensão do legado construído pela companhia. A partir dessa constatação, Deborah Colker e João Elias, diretor executivo e cofundador da Companhia, que também assina a dramaturgia e a direção musical do espetáculo, enfrentaram o desafio de selecionar cenas entre 15 trabalhos do grupo. O resultado é uma produção grandiosa, com toneladas de equipamentos, 16 bailarinos que dançam com uma cortina gigantesca de 12 metros, 90 vasos e uma roda-gigante com 5 metros de diâmetro, em dois atos marcados por sentimentos dissonantes.
A escolha das coreografias não foi apenas estética. Era preciso encontrar obras que dialogassem entre si, mesmo tendo sido criadas em épocas distintas. "Quando revisitamos nossa história percebemos que tínhamos um legado, um caminho, e que muitas coisas continuam relevantes e dizem quem nós somos. Quando juntamos tudo, parecia que fazíamos um filme", sublinha Deborah Colker. Em vez de seguir uma ordem cronológica, "Remix" propõe um percurso emocional. No primeiro ato, predominam os impulsos. A abertura acontece com "Paixão", de "Vulcão", primeiro espetáculo da companhia. A cena não trata do amor romântico: ""Paixão" é sobre descontrole, intensidade, ímpeto. A paixão é uma coisa que te desorganiza.
A coreografia é levada com uma colagem de canções românticas radiofônicas. Ela tem essa levada bem pop, cotidiana", pondera a coreógrafa. Na sequência, "Delírios", criação de "Belle" — espetáculo livremente baseado no romance "Belle de Jour" (1928), de Joseph Kessel, e no filme "A Bela da Tarde" (1967), de Luís Buñuel — coloca em cena os conflitos entre desejo e razão. "Remix" segue em tensão com duas coreografias de "4x4": "As Meninas", construída sobre uma sonata de Mozart executada ao vivo com Deborah ao piano, e a icônica "Vasos", em que bailarinos atravessam um labirinto formado por 90 vasos suspensos, em um exercício de precisão. "É dança com rigor, o risco da delicadeza, a relação entre movimento e espaço. Investigar e provocar novos espaços é algo muito presente no meu trabalho", afirma a artista.
Depois do intervalo, tudo muda. As cenas "Gravidade" e "Roda", ambas do espetáculo "Rota", conduzem o público a um estado de elevação. A enorme roda-gigante encerra o espetáculo e transforma o palco em um espaço de constante movimento, fazendo referência tanto ao brinquedo do parque de diversões quanto ao próprio planeta. "O primeiro ato tem tensão, uma emoção agarrada na cadeira. No segundo, as pessoas dão uma flutuada. É beleza, leveza. "Remix" é isso, é reviver e recontar uma história que continua viva. É a memória de algo que você está vivendo, meio física quântica", diz a coreógrafa.
Mas "Remix" também carrega as cicatrizes e as travessias de Deborah Colker. Concebido em um período de intensa turbulência pessoal, o espetáculo começou a tomar forma enquanto a coreógrafa acompanhava a recuperação do marido, o cantor e compositor Toni Platão, que sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) no fim de 2024 e ainda enfrenta as consequências do derrame. Em março deste ano, Deborah Colker enfrentou a perda do neto Theo, aos 14 anos. O adolescente, que havia inspirado "Cura", obra de 2021, sofria de epidermólise bolhosa, doença rara e não contagiosa que causa bolhas e ferimentos na pele. "A história do Toni me virou do avesso, tudo sendo tão difícil, depois veio a passagem do Theo e tudo se tornou inominável.
É uma tristeza, uma dor, um luto que não sei quando acaba. O Theo me ajuda todos os dias, ele me dizia "vai lá, vovó, você é uma pessoa forte, sempre foi tão importante pra mim você ser forte"", conta, emocionada. Poucas semanas após a morte de Theo, Deborah Colker viajou para Nova York para a estreia de "O Último Sonho de Frida e Diego", ópera que dirigiu e para a qual assinou as coreografias. Como uma roda-gigante, a vida da coreógrafa segue em movimento, e "Remix" surge como uma nova tradução desse percurso. "A música, a dança, os filmes… A arte é a cura do que não tem cura." "Remix" — Companhia de Dança Deborah Colker se apresenta no Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1046 — Centro), em Belo Horizonte, nesta sexta-feira (31/7), às 20h30; sábado (1º), às 16h30 e às 20h30; e domingo (2), às 18h. Os ingressos estão esgotados.