Crimeia se torna alvo central de ataques da Ucrânia

Foto: Flickr/president_of_ukraine
Kiev intensifica ataques à logística russa na Crimeia, cortando abastecimento de energia e combustível para isolar as tropas de Moscou
A Ucrânia intensificou seus ataques à logística russa na Crimeia, buscando isolar a península do continente e cortar o abastecimento das tropas de Moscou no sul do país. Drones de longo alcance têm sido utilizados contra veículos na estrada entre Rostov-no-Don e Melitopol, navios da frota russa no Mar de Azov e no Mar Negro, além de instalações de energia utilizadas pelas forças armadas do Kremlin. O comandante das forças de sistemas não tripulados da Ucrânia, Robert "Magyar" Brovdi, afirma que 196 navios russos e mais de cem instalações de energia foram atingidos desde o início de julho. Esses dados, no entanto, não puderam ser confirmados de forma independente.
Os problemas no abastecimento das forças armadas russas e da população civil na República Autônoma da Crimeia já são visíveis. No final de maio, as autoridades locais distribuíram vales-combustível que se esgotaram em apenas 24 horas, levando a gasolina a ser comercializada no mercado clandestino. Em junho, foi declarado estado de emergência na Crimeia e em Sebastopol, devido às repetidas interrupções no fornecimento de energia elétrica, água, telefonia móvel e internet em diversas regiões. Nina é aposentada e vive em um vilarejo próximo a Feodósia, no sudeste da península. Ela relatou à DW que não consegue cozinhar devido às quedas de energia e que o transporte público circula de forma irregular por falta de combustível. Seu maior temor é que não haja energia elétrica durante o inverno. Os blecautes mais prolongados ocorrem no norte da Crimeia, onde mora Ivan (nome fictício).
Ele contou à DW que, por um período, não foi possível obter combustível nem com vales nem com dinheiro, exceto para policiais, funcionários públicos e profissionais da saúde. Segundo ele, a região sofreu um colapso por vários dias, quando os carros simplesmente pararam e as pessoas não sabiam o que fazer. "Ficamos sem laticínios, peixe e carne. Apenas algumas lojas mantém um gerador de energia, mas lá os preços são muito mais altos do que eram antes", conta Ivan. Pequenas iniciativas voluntárias estão prestando auxílio à população afetada. A blogueira Olena Gerasimenko, em parceria com empresários de Simferopol, leva água potável a pessoas impactadas pelos cortes de energia, além de hospitais e creches. Em seu blog, ela registra as críticas da população à falta de assistência por parte das "autoridades" instaladas pela Rússia na Crimeia. Há ainda relatos nas redes sociais de que moradores do norte da Crimeia passaram a enviar correspondências por meio de linhas de ônibus, diante da falta de meios de comunicação, embora esses veículos já não circulem mais regularmente.
O exército ucraniano tenta bloquear as rotas de abastecimento da Crimeia atacando principalmente pequenos petroleiros e rebocadores russos que transportam petróleo para navios maiores e combustível para a península. Paralelamente, Kiev está destruindo subestações de energia na região. O comandante Brovdi afirmou, em entrevista ao jornalista britânico Caolan Robertson, que a ponte de Kerch — estrutura que liga a Crimeia à região russa de Krasnodar — está sendo deliberadamente poupada para servir como corredor de fuga da península. "Queremos tornar impossível para a máquina militar russa permanecer e operar ali", declarou Brovdi. O especialista militar Ivan Kirichevski, que serve em uma unidade de drones, destacou à DW a importância dos ataques aéreos na Crimeia para a frente de batalha em terra. "Para que os russos não cheguem nem perto de Zaporíjia, é preciso exercer pressão sobre as rotas de abastecimento deles no sul ocupado da Ucrânia. Isso vale sobretudo para a Crimeia. O bloqueio do tráfego marítimo no Mar de Azov e no Mar Negro tem, essencialmente, o mesmo objetivo", afirma Kirichevski. "A Crimeia já serve há tempo demais aos russos como uma base logística segura, de onde eles conduzem as ofensivas no sul da Ucrânia", complementou.