Brasil se prepara para enfrentar novas tarifas de 25% dos EUA

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Mais de 4 mil produtos brasileiros podem ser afetados por tarifas norte-americanas, após meses de negociações sem resultado concreto
O Brasil se prepara para a imposição de uma nova tarifa de 25% pelos Estados Unidos, que pode atingir mais de 4 mil produtos brasileiros. A medida vem após meses de negociações intensas, mas em grande parte infrutíferas, segundo quatro fontes que acompanham as discussões e falaram à Reuters sob condição de anonimato. O país deve ser o primeiro alvo de uma nova rodada de tarifas adotadas pelo governo norte-americano contra diversas nações, depois que a Suprema Corte dos EUA derrubou a política tarifária original do presidente Donald Trump, em fevereiro deste ano. "Não houve falta de esforço da nossa parte. Houve dezenas de reuniões, seis ou sete só no último mês", disse uma fonte envolvida nas negociações, que pediu anonimato. "Mas eles querem o impossível." Entre as exigências da equipe norte-americana estava o pedido para que alguns de seus produtos tivessem tarifas reduzidas exclusivas dentro do mercado brasileiro, o que fere a legislação do país e, mesmo que o Brasil decidisse ceder, acabaria na Justiça.
O anúncio de tarifas a ser feito pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), esperado para esta quarta-feira, pode afetar produtos brasileiros que equivalem a cerca de US$ 15 bilhões em exportações anuais, de acordo com levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A lista inclui molduras de madeira, tabaco, ferro-gusa, açúcar bruto e alumínio, entre outros, e abrange 13 de 15 produtos em que o Brasil figura entre os três principais fornecedores dos EUA. A nova estratégia tarifária do governo Trump se baseia na Seção 301 da lei comercial dos EUA, que autoriza investigações sobre supostas práticas comerciais desleais. Desde fevereiro, o USTR abriu quase 80 investigações com base nessa seção.
Na maior parte dos casos, os países são acusados de não possuírem legislações que impeçam a importação de produtos com trabalho escravo na cadeia produtiva. Além da investigação que se encerra nesta quarta-feira, o Brasil também está nesse grupo, o que deve elevar as tarifas contra o país em mais 12,5%, chegando a 37,5% a partir do dia 24 deste mês. Outras investigações, que incluem China, Índia e a União Europeia, acusam os países de usar subsídios e outras práticas para desenvolver uma "superprodução industrial" de modo artificial.
O Brasil está enquadrado em uma situação particular. A primeira investigação contra o país foi aberta em julho de 2025 com base em uma questão política: ao adotar tarifa de 40% contra o país, somada aos 10% já implementados anteriormente, Trump usou como argumento a suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde então, com a evolução do relacionamento entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as negociações foram ampliadas e mais produtos foram incluídos na lista de exceções. Ainda assim, a suposta "boa química" entre os presidentes — como descrito pelo próprio Trump — não livrou o Brasil das tarifas.
As fontes ouvidas pela Reuters admitem que pode ter pesado o clima político e as eleições deste ano, quando o Departamento de Estado norte-americano, chefiado por Marco Rubio, defende abertamente a candidatura do senador de oposição Flávio Bolsonaro. No entanto, a negociação, a cargo do USTR, também tem razões técnicas para manter as tarifas, incluindo a necessidade de reduzir o déficit comercial global norte-americano. Apesar de o Brasil ter déficit com os EUA, na conta geral norte-americana esse resultado precisa ser ainda maior. Ainda que tenha sido aberta com razões políticas, a investigação contra o Brasil avançou por questões comerciais. O texto citou diversas supostas práticas desleais, incluindo desmatamento ilegal e o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, que, segundo o governo dos EUA, prejudica as empresas de cartão de crédito.
As evidências contrárias apresentadas pelo Brasil foram ignoradas, segundo os negociadores brasileiros. Em carta enviada ao representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, afirmou que os EUA não conseguiram confirmar as acusações e insistiram em informações erradas. Vieira classificou a investigação de "arbitrária" e parte de uma "pressão econômica generalizada imposta pelos EUA".
Espera-se que as tarifas propostas pela Seção 301 isentem diversas categorias de produtos brasileiros, como carne bovina, café, terras raras e peças de aeronaves, que representam a maior parte das exportações do Brasil para os EUA. Esses produtos já haviam sido excluídos das tarifas anteriores de 50% impostas pelo governo Trump. Há agora a expectativa de que novos produtos possam entrar nas isenções, após pedidos de empresas norte-americanas, mas até o momento não há informações concretas. O governo brasileiro aguarda o anúncio norte-americano para calcular sua própria reação, mas as fontes afirmam que algum tipo de retaliação virá em breve, possivelmente mais de uma. Internamente, o país conta com a Lei da Reciprocidade, que pode ser usada em casos de medidas consideradas abusivas e injustas. Um novo processo deve ser iniciado — são necessárias consultas ao setor industrial —, mas existe também a possibilidade de um rito sumário. Externamente, o Brasil já tem uma disputa em andamento na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as tarifas norte-americanas, aberta no ano passado.
Essa disputa pode ser aproveitada agora, encurtando o caminho para o Brasil pedir a abertura de um painel no Mecanismo de Soluções de Controvérsias. Apesar de praticamente paralisada nos últimos anos, a OMC ainda tem o poder de dar o aval ao Brasil para uma retaliação internacional. O resultado desse novo tarifaço dos EUA deve ser uma deterioração ainda maior de uma relação comercial que já vem decaindo. Dados da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos mostram que a participação dos EUA no comércio total do Brasil caiu para 9,7% no primeiro semestre deste ano, em comparação com 12,1% no mesmo período de 2025 — o nível mais baixo desde o início dos registros, em 1997. "É a primeira vez na história que as exportações para os EUA representam menos de 10% da balança comercial brasileira", contou uma das fontes. "A verdade é que desde o início do tarifaço as empresas vêm buscando alternativas. Não há dúvidas que impacta vários setores, mas não vai quebrar o Brasil." Outra fonte, ao analisar a questão política, lembra que uma das maiores preocupações norte-americanas é a influência da China na América Latina. "É um tiro no pé. Eles empurram cada vez mais o Brasil e outros países para a Ásia", diz essa fonte.