Jornal revela suposto plano do Mossad para recolocar Ahmadinejad no poder no Irã

O ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (Foto: Spencer Platt)
Investigação do Haaretz revela operação israelense para tirar Ahmadinejad da prisão domiciliar e devolvê-lo ao poder no Irã
Uma investigação do jornal israelense Haaretz revelou os bastidores de uma suposta operação secreta do Mossad, o serviço de inteligência de Israel, para derrubar o regime dos aiatolás no Irã e recolocar no poder Mahmoud Ahmadinejad, ex-presidente iraniano e um dos maiores inimigos históricos do Estado judeu.
O plano, batizado internamente de "Puss in Boots", teria sido conduzido por quase dois anos pelo diretor do serviço de inteligência, David Barnea, sob orientação direta do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, e fracassou antes de sair do papel.
Vale lembrar que, em março deste ano, a agência de notícias estatal iraniana ILNA havia informado que Ahmadinejad, de 69 anos, teria sido morto em um ataque aéreo em Teerã durante os bombardeios dos EUA e de Israel. "Ahmadinejad, de 69 anos, foi morto em sua casa, na zona leste de Teerã, junto com seus guarda-costas", segundo a ILNA.
De acordo com o Haaretz, que ouviu mais de 30 pessoas da cúpula política, de defesa e da diplomacia israelense, a virada de Netanyahu em direção à ideia de mudança de regime ocorreu em 2024, impulsionada por dois episódios marcantes: a morte do então presidente iraniano Ebrahim Raisi em acidente de helicóptero, celebrada nas ruas de Teerã, e o colapso rápido do regime de Bashar al-Assad na Síria.
Os dois eventos teriam convencido o premiê de que o regime iraniano era mais frágil do que se calculava, rompendo com quase duas décadas de cautela israelense sobre o tema, já testada e descartada por ex-chefes do Mossad como Meir Dagan e Tamir Pardo.
A partir dessa avaliação, Netanyahu instruiu Barnea a redirecionar recursos do serviço secreto para desestabilizar Teerã. O plano evoluiu para uma operação de várias frentes: milícias curdas seriam armadas e treinadas no Iraque para invadir o oeste do Irã sob cobertura aérea israelense; outras minorias seriam ativadas para agitar o país internamente; e, na etapa final, Ahmadinejad assumiria o poder, prometendo abandonar o programa nuclear iraniano.
O Haaretz descreve reuniões semanais realizadas às sextas-feiras na Kirya, sede das Forças Armadas em Tel Aviv, com Netanyahu, Barnea e representantes da cúpula militar. Segundo o relato, o clima era informal — Netanyahu costumava aparecer de polo preta e calça cáqui, enquanto Barnea era o único de terno na sala.
Oposição interna e ceticismo americano
Desde o início, o plano enfrentou forte resistência dentro do próprio aparato de segurança israelense. O chefe da Inteligência Militar, general Shlomi Binder, e o chefe da divisão de pesquisa, general Ofir Mizrahi-Rosen, prepararam avaliações formais apontando baixa chance de sucesso. O assessor de segurança nacional, Tzachi Hanegbi, parou de comparecer às reuniões após concluir que os planos "pareciam ficção científica" e não tinham valor prático.
Três dias antes da data marcada para a ofensiva, o chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, chegou a ordenar a interrupção de tudo. Netanyahu decidiu seguir mesmo assim.
No plano diplomático, o jornal relata que uma reunião decisiva ocorreu na Casa Branca em 11 de fevereiro deste ano, quando Netanyahu teria convencido pessoalmente o presidente Donald Trump a apoiar a ideia de mudança de regime no Irã. No dia seguinte, porém, a equipe de Trump reagiu com ceticismo: o vice-presidente J. D. Vance teria se mostrado desconfiado, o secretário de Estado Marco Rubio chamou o plano de "besteira" e o diretor da CIA, John Ratcliffe, o descreveu como "farsa".
Ainda assim, a operação avançou internamente. O Mossad estimava que cerca de 16 mil combatentes curdos participariam da fase inicial da invasão, com apoio de depósitos de armas iranianos capturados ao longo do avanço. Em um cenário mais otimista, tropas curdas chegariam a bairros de oposição em Teerã, sob cobertura aérea israelense, para ajudar a deflagrar um levante popular.
Dias antes do ataque, uma nova fricção interna emergiu: Barnea informou ao chefe do Estado-Maior que o sucesso do plano dependia da eliminação do líder supremo Ali Khamenei, condição que irritou Zamir, o qual considerou o requisito um risco adicional imposto de última hora à operação militar.
No fim, o ataque conjunto de Israel e Estados Unidos ao Irã, em 28 de fevereiro, eliminou Khamenei e atingiu a guarda responsável pela prisão domiciliar de Ahmadinejad, mas a invasão curda nunca aconteceu.
Segundo o Haaretz, o cancelamento teve dois fatores decisivos: um telefonema do presidente turco Recep Tayyip Erdogan a Trump, pedindo que os EUA não cooperassem com os curdos por temer efeitos sobre a própria minoria curda na Turquia; e uma declaração pública de Trump, em 7 de março, descartando explicitamente a entrada das milícias curdas na guerra.
Sem o apoio americano, o Mossad chegou a esboçar um plano alternativo, usando o feriado pré-islâmico de Chaharshanbe Suri como estopim para protestos, mas a ideia foi descartada após objeções da Inteligência Militar, que temia expor agentes sem ganho real.
Ex-autoridades ouvidas pelo Haaretz classificaram o episódio como um fracasso de planejamento. O ex-diretor do Mossad Tamir Pardo afirmou que operações desse tipo levam décadas para amadurecer, não meses.
Já Barnea, segundo o jornal, mantém a avaliação de que o regime iraniano ainda está fadado a cair — dentro de um a três anos —, mas reconhece que um eventual acordo entre EUA e Irã, com o fim das sanções, pode garantir a sobrevivência do regime.