Juros de 20% ao dia e tortura: agiotas colombianos aterrorizam MG com violência

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil
Operação Capital Coativo prendeu 14 suspeitos, entre agiotas colombianos e brasileiros, que usavam violência e vídeos para intimidar vítimas na Grande BH
O aumento do endividamento das famílias brasileiras e a dificuldade de acesso ao crédito formal têm impulsionado a atuação de quadrilhas de agiotas brasileiros e colombianos em Minas Gerais. Além da cobrança de juros abusivos, os criminosos recorrem a ameaças, espancamentos, torturas e outras formas de intimidação para forçar o pagamento das dívidas.
Investigações da Polícia Civil revelam que algumas organizações criminosas passaram a gravar as sessões de violência contra os devedores. Os vídeos são compartilhados em grupos de mensagens como forma de espalhar o medo e intimidar outras pessoas com pagamentos em atraso.
Operação prendeu colombianos e brasileiros
A Polícia Civil deflagrou a Operação Capital Coativo para prender um grupo de agiotas que atuava principalmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com foco em Contagem. Ao todo, foram presos 14 suspeitos: nove colombianos e cinco brasileiros.
O delegado Raphael Boechat, responsável pelas investigações, explicou que há diferenças na forma de atuação entre os grupos. Segundo ele, os agiotas colombianos chegam ao Brasil já integrados à organização criminosa e passam por uma espécie de hierarquia até assumirem posições de comando. "O sistema deles é muito organizado. Eles vêm da Colômbia para trabalhar diretamente na cobrança e, com o tempo, passam a administrar grupos regionais", explicou o delegado.
Outra característica dos agiotas colombianos é a cobrança de juros diários, que, segundo Boechat, podem variar entre 6% e 20%. "Eles costumam permanecer o dia inteiro no comércio das vítimas, intimidando clientes, recolhendo objetos e fazendo ameaças para forçar o pagamento", afirmou.
Já os grupos brasileiros costumam agir em menor número, mas empregam violência ainda mais intensa, de acordo com a investigação. "Eles invadem residências, agridem vítimas com pedaços de pau e armas de choque, perseguem familiares, chegam a intimidar crianças nas creches e ameaçam parentes idosos. Geralmente usam armas de fogo e motocicletas para fugir", disse Boechat.
Delegado pede que vítimas denunciem
Raphael Boechat também rebate o argumento de que quem recorre a um agiota deve arcar sozinho com as consequências. Segundo ele, as vítimas geralmente estão em situação de extrema vulnerabilidade financeira e acabam sendo submetidas a cobranças muito superiores ao valor originalmente emprestado. "Em muitos casos são mulheres tentando sustentar os filhos em meio ao desemprego. Culpar essas pessoas significa promover uma segunda vitimização", afirmou o delegado.
Boechat reforçou ainda que a agiotagem é crime e frequentemente está ligada a outros delitos graves. "Quando os juros cobrados ultrapassam os limites previstos em lei, já há configuração do crime. Mas o maior problema é que a agiotagem costuma ser a porta de entrada para diversos crimes gravíssimos", destacou.
Por fim, o delegado orientou que as vítimas procurem a polícia. "Quanto mais pessoas denunciarem o mesmo agiota, melhor para a investigação e para a proteção das próprias vítimas. Uma eventual retaliação se torna muito mais difícil quando há dezenas ou centenas de denunciantes", concluiu Boechat.