Venezuelanos improvisam necrotério em porto de La Guaira

Corpos encontrados nos escombros estão sendo levados para o porto de La Guaira — Foto: Federico Parra
Porto de La Guaira concentra corpos das vítimas dos terremotos; ONU anuncia envio de 10 mil bolsas mortuárias à Venezuela
O porto de La Guaira, a região mais devastada pelos terremotos que sacudiram a Venezuela há seis dias, tornou-se um necrotério improvisado. Para o local são levados os corpos retirados dos escombros de edifícios que desabaram após os tremores de magnitude 7,2 e 7,5, registrados em um intervalo de segundos na última quarta-feira.
Médicos legistas com jalecos azuis circulavam nesta segunda-feira (29/06) entre dezenas de sacos mortuários empilhados no chão do porto. Alguns corpos já estavam em caixões de madeira, também dispostos no chão. Perto da tenda branca que concentra a operação, havia cerca de uma centena de caixões vazios de um lado e escombros do outro, segundo jornalistas da agência AFP presentes no local.
Os terremotos devastaram La Guaira, estado costeiro vizinho a Caracas, cujo porto é um dos mais importantes do país pela proximidade com a capital. O último balanço oficial registrou 1.719 mortos, mas o número segue crescendo. Nos primeiros dias, feridos e cadáveres foram encaminhados a hospitais da região, mas os necrotérios das unidades de saúde colapsaram rapidamente diante da quantidade de óbitos.
Longa espera para identificar os corpos
Do lado de fora do porto, familiares aguardam em fila para entrar e reconhecer seus entes queridos ou receber os corpos. Muitos carregam buquês de flores coloridas nas mãos. A espera é longa, e as críticas à falta de pessoal para atender à emergência se somam a outras queixas sobre a gestão da crise.
A busca entre os escombros é realizada, na maioria dos casos, sem apoio das autoridades. "Minha família está aí, me disseram que estão aí minha irmã e os filhos dela, e também os filhos do meu irmão, que sobreviveu", relatou Wilker Molalla, de 25 anos, enquanto esperava ser chamado para identificar os corpos. A família vivia em um bairro próximo ao porto. Eram 11 pessoas: apenas Molalla e seu irmão sobreviveram porque estavam trabalhando no momento dos tremores.
Médicos e técnicos forenses trabalham ao ar livre com os cadáveres sob lonas sustentadas por quatro hastes. Alguns dos corpos estão cobertos com cal, procedimento que especialistas consideram desnecessário. No porto de La Guaira, são emitidos certificados de óbito e autorizações para cremação. Um caminhão identificado como Unidade Especial de Resíduos Hospitalares também chega ao local para recolher amostras destinadas às autópsias.
Antony Marcano, cozinheiro de 41 anos, descreveu a angústia de procurar a filha entre os corpos. "Eu vim ontem e caminhei por tudo, caminhei por tudo, caminhei por tudo e não encontrei minha filha", disse, desolado. "Hoje vim com mais calma e, graças a Deus, a encontrei, a identifiquei", acrescentou. "Reconheci pelo anel que eu dei a ela."
ONU fornecerá 10.000 bolsas mortuárias
As autoridades venezuelanas evitam falar em desaparecidos, mas a ONU estima que sejam cerca de 50 mil. Nesta segunda-feira, a Organização das Nações Unidas anunciou que fornecerá ao país 10 mil bolsas mortuárias. Representantes de funerárias privadas também oferecem serviços gratuitos de traslado e cremação, com carros funerários estacionados do lado de fora do porto.
Darwin Silva, de 37 anos, preparava-se para transportar o corpo da mãe, que morava em um conjunto habitacional chamado Hugo Chávez I, parte de um programa emblemático do governo. "Já foi reconhecida, já me deram a certidão de óbito", afirmou, abalado. Ele mesmo levou o corpo até o porto para concluir os trâmites. A mulher foi encontrada sob uma viga, durante a noite, com o auxílio de um gerador disponibilizado por moradores para iluminar o local.
Os prédios do conjunto habitacional, construídos como parte dos esforços para modernizar o país, agora simbolizam a grave situação venezuelana. "A maioria dos prédios na parte de trás do conjunto desabou completamente", disse Jenny Contreras, de 28 anos, moradora de Catia La Mar, perto de La Guaira. Contreras, o marido e o filho de quatro anos dormem em um colchão na rua desde que os tremores derrubaram parte do conjunto.
Os 3.400 apartamentos foram evacuados, e ela afirma não ter conseguido voltar sequer para recuperar seus pertences. Grandes rachaduras se espalham pelos edifícios, revelando os materiais de construção internos, enquanto alguns estão à beira do colapso e outros já desmoronaram completamente.