Indefinição marca eleição no Peru com Keiko e Sánchez tecnicamente empatados

Keiko Fujimori e Roberto Sánchez disputarão segundo turno da eleição presidencial do Peru - Fotos: Raul Sifuentes | Vasquez/Anadolu
Com 82% das urnas apuradas, Keiko Fujimori e Roberto Sánchez seguem em disputa acirrada pela presidência do Peru
O resultado do segundo turno da eleição presidencial no Peru permanecia indefinido na madrugada desta segunda-feira (8). Com 82% das urnas apuradas, a candidata de direita Keiko Fujimori aparecia em empate técnico com o esquerdista Roberto Sánchez na disputa para definir quem será o nono presidente do país em apenas uma década. Embora Keiko Fujimori registrasse uma vantagem de cerca de três pontos percentuais na contagem oficial divulgada pelo órgão eleitoral, a diferença ainda era considerada insuficiente para indicar uma tendência irreversível. Dois institutos de pesquisa que realizaram levantamentos de apuração rápida apontavam Sánchez com vantagem de aproximadamente um ponto, aprofundando a incerteza sobre o desfecho.
A indefinição levou milhares de apoiadores dos dois candidatos às ruas de Lima. Em diferentes pontos da capital peruana, simpatizantes acompanharam a apuração e comemoraram antecipadamente a possibilidade de vitória de seus candidatos. "Estamos em um empate técnico. Até o momento não há nenhum vencedor. Serão dias longos", afirmou Keiko Fujimori durante um discurso a apoiadores, pedindo calma enquanto a contagem dos votos prosseguia. Sánchez também evitou declarar vitória e destacou a importância de respeitar o processo eleitoral. "Estamos diante de um empate. Que a contagem prossiga dentro dos padrões de uma eleição transparente", disse diante de uma praça lotada de simpatizantes.
Projetos políticos antagônicos
A disputa coloca frente a frente duas figuras que representam visões opostas para o país. Keiko Fujimori, de 51 anos, tenta chegar à Presidência pela quarta vez. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, ela busca se beneficiar do legado deixado pelo pai, lembrado por apoiadores pela estabilização econômica e pelo combate aos grupos insurgentes, mas também criticado por violações de direitos humanos e práticas autoritárias.
Do outro lado está Roberto Sánchez, de 57 anos, ex-ministro e congressista que se apresenta como herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo. Castillo foi destituído e preso após tentar dissolver o Congresso em 2022, em uma ação classificada pelas autoridades como tentativa de autogolpe. Sánchez tem reforçado sua ligação com o ex-presidente: durante a campanha, passou a utilizar um tradicional chapéu camponês recebido de Castillo, prometeu conceder anistia ao aliado e chegou a visitá-lo na prisão no domingo, véspera da eleição.
Entre os eleitores, a expectativa é de que o próximo governo consiga enfrentar dois dos principais desafios do país: a escalada da criminalidade e a instabilidade política que marcou os últimos anos. Desde 2016, o Peru teve oito presidentes, em meio a sucessivas crises institucionais. "Estou feliz porque sei que ela fará um bom governo. Ela quer recuperar a imagem do pai", afirmou Gladys Silva, dona de casa de 56 anos, durante um ato de campanha de Keiko Fujimori em Lima. Já entre os apoiadores de Sánchez, o sentimento predominante era o desejo de mudança. "Queremos transformação porque estamos cansados da corrupção e do fujimorismo, que administra o país como se fosse sua propriedade", declarou Marlene Veramendi, de 46 anos.
Votação e propostas
Cerca de 27 milhões de peruanos foram convocados para votar. A eleição transcorreu sem incidentes relevantes, diferentemente do primeiro turno realizado em abril, marcado por problemas logísticos e atrasos em algumas regiões.
Sob o slogan de restabelecer a ordem, Keiko Fujimori prometeu fortalecer a economia, ampliar investimentos e combater o que chama de ameaça do comunismo. Sua plataforma é baseada em propostas liberais, defesa da propriedade privada e aproximação com os Estados Unidos.
Sánchez, por sua vez, moderou o discurso adotado no primeiro turno. Após defender mudanças mais profundas no sistema político e econômico, passou a adotar um tom mais conciliador, afastando-se de setores ultranacionalistas. Em entrevistas recentes, afirmou que pretende manter relações respeitosas com Washington e preservar a abertura econômica do país.
O candidato de esquerda acusa Keiko Fujimori de representar o grupo político que domina o Congresso peruano e que, segundo ele, tem contribuído para a sucessiva queda de presidentes nos últimos anos. A campanha de Sánchez também foi impactada por uma decisão judicial. Um juiz determinou que ele seja levado a julgamento por supostas irregularidades financeiras envolvendo seu partido político. Caso seja eleito, o candidato passará a contar com imunidade presidencial, mas continuará enfrentando um Congresso de maioria conservadora e favorável à direita.
Para o cientista político Paulo Vilca, o próximo presidente enfrentará dificuldades independentemente do resultado final. "Quem vencer terá praticamente metade do país contra si e uma legitimidade frágil. Sem maioria legislativa, será necessário construir uma ampla coalizão para governar", avaliou.
Segurança pública
A segurança pública foi um dos temas centrais da campanha. O Peru enfrenta um crescimento expressivo da atuação de organizações criminosas, enquanto as denúncias de extorsão aumentaram nove vezes nos últimos cinco anos.
Keiko Fujimori defende uma política de endurecimento no combate ao crime. Entre suas propostas estão a militarização de presídios, o reforço da presença das Forças Armadas em áreas críticas e a expulsão de imigrantes envolvidos em atividades criminosas.
Já Sánchez atribui o avanço da violência à corrupção dentro das forças de segurança e do sistema de Justiça, defendendo a reforma dessas instituições e o enfrentamento da influência de grupos políticos sobre os órgãos públicos.
As bases eleitorais dos dois candidatos refletem essa divisão. Sánchez tem maior apoio em áreas rurais e regiões mais pobres do país, onde os índices de violência são menores. Keiko Fujimori concentra força política em Lima e nos grandes centros urbanos, onde a criminalidade tem crescido rapidamente. Apenas na capital, a taxa de homicídios triplicou entre 2020 e 2025, chegando a 23 mortes por 100 mil habitantes.
O vencedor da eleição assumirá o cargo em 28 de julho, substituindo o presidente interino José María Balcázar. Herdará um país com crescimento econômico estimado em 3,4%, mas também com elevados índices de informalidade: cerca de 70% dos trabalhadores peruanos atuam fora do mercado formal.