Israel e Hezbollah concordam com cessar-fogo no Líbano

Fumaça sobe após um ataque aéreo israelense em cidade no sul do Líbano
Acordo foi mediado pelos EUA após confrontos que ameaçaram o entendimento entre Washington e Teerã e suspenderam novas negociações na Suíça
Israel e o Hezbollah concordaram com um cessar-fogo nesta sexta-feira (19), segundo um funcionário norte-americano, após confrontos entre o Exército israelense e o grupo libanês que ameaçaram o recente acordo para encerrar a guerra no Oriente Médio.
Os bombardeios israelenses e ataques aéreos mataram ao menos 47 pessoas e deixaram 97 feridos no Líbano, de acordo com o balanço mais recente do Ministério da Saúde libanês.
Um balanço anterior já registrava 21 mortos e 39 feridos na noite de quinta-feira (18), no sul e no leste do país.
O memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, assinado na quarta-feira (17), prevê um cessar-fogo "em todas as frentes, incluindo o Líbano", condição na qual Teerã havia insistido para encerrar o conflito.
O Irã é aliado do movimento islamista libanês Hezbollah.
Israel ameaça o Hezbollah
O anúncio do cessar-fogo ocorreu horas depois de o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, advertir que o país "fará pagar um preço muito alto" ao Hezbollah pela morte de militares israelenses.
Ele também prometeu que as forças de Israel permanecerão "pelo tempo necessário" no sul do Líbano, onde realizaram sua maior incursão terrestre em décadas.
"Todo o Líbano deve arder", declarou o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, levando o chanceler iraniano Abbas Araghchi a acusar Israel de querer "guerra permanente".
Muitos moradores fugiram do sul do país após os ataques, apertados em carros, alguns com colchões e pertences amarrados sobre os veículos, conforme constatou um correspondente da AFP na região de Tiro.
"Estávamos em casa quando, de repente, começaram os bombardeios. Nenhuma cidade, nenhuma casa foi poupada", contou Zeinab Naser, de 69 anos, em meio a um congestionamento em Sidon, no sul do Líbano.
"Os aviões militares israelenses nunca deixam o céu. Esperamos que esse veneno [Israel] vá embora do nosso país e possamos viver", acrescentou.
Negociações entre EUA e Irã
A guerra, desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, causou milhares de mortes, principalmente na república islâmica e no Líbano.
O conflito também abalou a economia mundial devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, fundamental para o transporte de hidrocarbonetos.
O vice-presidente americano, JD Vance, e o principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, deveriam iniciar uma nova fase de negociações nesta sexta-feira na Suíça, mas o encontro foi suspenso em meio às hostilidades no Líbano, sem que uma nova data fosse divulgada.
Horas depois, um funcionário americano informou à AFP que Israel e o Hezbollah haviam concordado com um cessar-fogo com efeito imediato, negociado por mediadores americanos após conversas com Israel e Irã.
Um diplomata do Golfo, sob condição de anonimato, confirmou a trégua.
O acordo assinado entre os dois países prevê a abertura de 60 dias de discussões para abordar suas principais divergências, como o programa nuclear iraniano e o levantamento das sanções contra Teerã.
"Os próximos 60 dias serão cruciais. Podemos chegar a um acordo global, mas também esperamos um acordo incompleto, com algumas lacunas", afirmou uma fonte diplomática dos Emirados Árabes Unidos.
A semana começou sob um clima de otimismo, com o anúncio do acordo assinado pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e por seu homólogo americano, Donald Trump.
O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, declarou que aprovou o acordo, embora com reservas, afirmando que no futuro haverá "negociações presenciais" com os Estados Unidos, mas que isso não "significa aceitar o ponto de vista do inimigo".
Navios retomam passagem pelo Estreito de Ormuz
Enquanto isso, o tráfego foi retomado no Estreito de Ormuz, rota marítima crucial para o comércio mundial de hidrocarbonetos.
Ao todo, 25 navios comerciais atravessaram a passagem na quinta-feira (18), um volume inédito desde meados de abril e cinco vezes superior à média dos dez primeiros dias de junho, segundo dados da plataforma de monitoramento marítimo AXSMarine.
Desde o início da guerra, Teerã havia fechado o estreito, ao que os Estados Unidos responderam bloqueando os portos iranianos.
A autoridade marítima iraniana responsável pelo Estreito de Ormuz informou nesta sexta-feira que embarcações que desejem utilizar a passagem deverão solicitar autorização com "48 horas de antecedência".
Segundo os termos do memorando de entendimento, "não será cobrada" nenhuma taxa "durante um período de 60 dias", informou a televisão estatal iraniana, citando um comunicado do Conselho Supremo de Segurança Nacional.
Os preços do petróleo interromperam a queda nesta sexta-feira, após os recuos registrados depois do anúncio do acordo-quadro.
O barril do Brent do Mar do Norte, referência internacional, era negociado em torno de US80(R80(R 440).