Dorli Kamkhagi: ''Dia do Amor e Dia dos Namorados''

Dorli Kamkhagi: ''Dia do Amor e Dia dos Namorados''
Entre a paixão e a maturidade, os desafios e aprendizados que fazem parte das relações afetivas
Será que essa necessidade de sermos amados e admirados por alguém faz parte da necessidade mais forte e antiga de sermos queridos?
Vivemos em tempos nos quais as mídias e a sociedade de consumo nos colonizam, dizendo como devemos ser e quais necessidades é importante que tenhamos.
Então, o amor, sentimento tão forte que algumas vezes transcende os limites de quem somos, pode nos levar a desejar ter e ser o amor para alguém.
Segundo Winnicott, grande pediatra e psicanalista, nascemos em um estado de carência absoluta e necessitamos ser cuidados, tendo nossas necessidades atendidas por uma mãe suficientemente boa. Em alguns estágios primários do desenvolvimento, vivemos quase em um estado de fusão com essa mãe, ou com quem a representa.
Mas, a partir desse início de vida, algumas pessoas que não tiveram um desenvolvimento adequado e carregam certas lacunas podem buscar em outras pessoas aquilo que lhes faltou.
E aí surge a possibilidade de viver um amor.
Muitas vezes, porém, trata-se de uma paixão na qual o outro é idealizado como aquele que vai me completar em tudo.
Passa-se, então, para um estado de idealização, em que o outro pode ser tudo para mim, e eu posso ser tudo para ele ou ela.
Desse lugar, muitas vezes cria-se uma pseudoilusão na qual o objeto de amor pode ser e fazer o impossível.
É desse tipo de paixão e aprisionamento que surgem relações tóxicas e perigosas.
No momento em que coloco o controle da minha vida no olhar do outro, acabo ficando em um lugar de total vulnerabilidade e dependência emocional.
Amor de transformação
Existe um amor que vai além da paixão e que permite que possamos estar juntos, porém preservando nossa própria individualidade.
Esse amor, que dá lugar ao crescimento de cada um, também possibilita que existam desejos e sonhos, às vezes compartilhados, mas também vividos em tempos diferentes e dentro dos projetos de vida de cada pessoa.
Aprendemos, no trabalho clínico, que o amor é algo que nos permite crescer e alcançar novos lugares.
Esse amor de trocas, que entende que somos humanos e falíveis, permite que possamos cuidar e alimentar a relação.
Nesse contexto, a idealização abre espaço para vermos o outro também como uma pessoa que precisa do seu tempo e do seu espaço.
É através dessa experiência de estarmos juntos, tecermos sonhos e aceitarmos os limites e impossibilidades que uma relação baseada no amor e no respeito pode sobreviver e crescer.
Talvez o aprendizado mais profundo seja o de tolerar frustrações e dificuldades.
Dessa forma, entendemos que o amor pode ir além do tempo, pois ele é um caminho na construção de afetos que compreendem os silêncios e permitem que cada um possa se expressar e se fazer presente.
Este é um caminho de crescimento e maturidade.
Este é um caminho de seguirmos juntos e separados.
Este é o caminho do amor!