PF indicia presidente da ANM e empresários por minério ilegal na Serra do Curral

Serra do Curral, em Minas Gerais - Foto: Alex Lanza / Divulgação / MPMG
Mauro Sousa, chefe da ANM, é indiciado por suspeita de integrar esquema de exploração ilegal de minério na Serra do Curral, em MG
A Polícia Federal (PF) indiciou o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Sousa, por suspeita de integrar uma associação criminosa voltada à exploração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Minas Gerais.
Ao todo, outras 50 pessoas foram indiciadas em dois inquéritos que apuram o esquema, no âmbito das operações Rejeito e Parcours, conduzidas pela superintendência da PF em Minas.
Procurado pela reportagem, Sousa afirmou que vai se pronunciar assim que tiver acesso à íntegra do relatório, o que, segundo ele, ainda não ocorreu.
Ele está à frente da ANM desde 2022.
Os principais indiciados
Além do diretor-geral da ANM, a lista de indiciados inclui:
Caio Trivelatto, outro diretor da ANM, apontado pela PF como alguém que teria influenciado atos normativos e decisórios para favorecer mineradores investigados;
Pablo César de Sousa, ex-assessor do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que disse em nota não comentar o mérito do caso "neste momento", mas que sempre pautou sua atuação "pela ética";
Lucas Kallas, empresário do setor de mineração que já foi parceiro de negócios do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, como principal investidor.
Kallas não respondeu imediatamente ao pedido de comentário feito pela reportagem.
De acordo com a PF, Mauro Sousa se utilizou da função pública para atender a interesses privados da empresa Empabra Green Metals, investigada por lavra irregular, usurpação mineral e outras infrações ambientais.
A reportagem não havia conseguido contato com Trivelatto até a publicação do texto.
Como o esquema funcionava
O ponto central da investigação é o uso de planos de recuperação ambiental e de fechamento de mina como instrumentos de fachada para ocultar a exploração ilegal, como ocorreu na Mina Granja Corumi, localizada em Belo Horizonte.
Segundo a PF, as provas demonstram "a transformação de um dever de recuperação ambiental em atividade minerária profissional, economicamente orientada, com divisão de tarefas e mecanismos de captura institucional".
Anotações encontradas pelos investigadores indicam que os indiciados buscavam obter um lucro de até R$ 2,3 bilhões com a "monetização do minério", ou seja, com a extração ilegal de recursos da Serra do Curral.
"As alegações de recuperação ambiental foram utilizadas como suporte formal para viabilizar extração, beneficiamento, logística e comercialização de minério em desconformidade com os limites jurídicos", afirma a PF.
O relatório aponta que o diretor-geral da ANM mantinha relação "próxima, frequente e informal" com representantes da empresa investigada, conforme mensagens interceptadas e registros de 61 telefonemas feitos entre 2023 e 2025.
As conversas indicam "relação incompatível com a impessoalidade esperada entre o dirigente máximo da agência e o empresário do setor regulado, com tratativas pessoais e acompanhamento privilegiado de temas internos da ANM", segundo a corporação.
A PF cita ainda evidências de que Sousa teria adiantado informações internas da agência aos empresários, encaminhado suas demandas à área técnica, feito considerações prévias em minutas da empresa e atuado como facilitador do grupo junto à ANM.
Além dos crimes relacionados à associação criminosa, Sousa responderá por advocacia administrativa e tráfico de influência.
No caso de Kallas, o indiciamento se deu por conta da gestão da extração irregular de minério entre 2014 e 2018, período em que ele atuou no negócio.
A PF aponta que ele teria incorrido nos crimes de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e tráfico de influência, entre outros.
O relatório destaca, por exemplo, que o empresário teria pago o sócio-torcedor de um funcionário da ANM como propina.
As investigações das operações Rejeito e Parcours seguem em andamento na superintendência da PF em Minas Gerais, com os indiciamentos agora encaminhados às autoridades competentes para as próximas etapas judiciais.