Anistia acusa Israel de limpeza étnica e despejo na Cisjordânia

Bandeira de Israel
ONG denuncia deslocamento forçado de 27 comunidades palestinas na Cisjordânia e pede reação da comunidade internacional
A Anistia Internacional acusou Israel, nesta quarta-feira (10/6), de promover "limpeza étnica" contra comunidades beduínas e pastoris na Cisjordânia ocupada e de cometer "crime contra a humanidade de transferência forçada". A organização também apela à comunidade internacional para que reaja à anexação do território palestino.
Em seu novo relatório, a entidade de direitos humanos afirma que 27 comunidades palestinas foram deslocadas à força entre 2023 e 2025 — ou estão ameaçadas de deslocamento forçado — na chamada área C, região que abrange 60% da Cisjordânia e está sob controle israelense desde a década de 1990.
A Anistia Internacional denuncia "apelos explícitos de autoridades israelenses para a expansão dos assentamentos", bem como "medidas destinadas a minimizar a presença palestina" no local. A Cisjordânia integra os Territórios Palestinos ocupados por Israel desde 1967.
O relatório aponta que o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, um dos mais à direita da história do país, segue a agenda nacionalista religiosa do movimento de colonos.
Segundo a ONG, o governo israelense "acelerou a expansão dos assentamentos e a apropriação de terras, aumentou o apoio financeiro e logístico aos assentamentos e armou os colonos, possibilitando assim uma campanha brutal, apoiada pelo Estado, de violência por parte dos colonos e o deslocamento forçado de palestinos da Área C".
O ministro israelense das Finanças, Bezalel Smotrich, de extrema direita, é uma das autoridades favoráveis à anexação da Cisjordânia. Na terça-feira (9/6), a França anunciou ter proibido sua entrada no país em razão dessa posição.
Desde a formação do atual governo, no fim de 2022, foram autorizados 102 assentamentos na Cisjordânia, de acordo com a organização israelense antiassentamentos Paz Agora. Mais de 500 mil israelenses vivem na Cisjordânia — excluindo Jerusalém Oriental, anexada por Israel —, em assentamentos que as Nações Unidas consideram ilegais sob o direito internacional. Cerca de três milhões de palestinos também habitam esse território.
Alguns colonos israelenses da região estão envolvidos em atos criminosos, como incêndios, vandalismo, roubo e agressões físicas, incluindo assassinatos de palestinos.
Seis ataques por dia
A violência aumentou drasticamente desde o ataque do movimento islâmico Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza. Desde janeiro deste ano, a média de ataques de colonos chegou a seis por dia, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).
Israel afirma que esses atos são cometidos por indivíduos isolados. No entanto, segundo Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional, "a campanha de limpeza étnica está sendo realizada e apoiada pelo Estado [israelense], e não por colonos 'rebeldes' ou ministros 'extremistas'".
Comunidades beduínas e pastoris, frequentemente isoladas e sem serviços de segurança, são as mais vulneráveis. Desde 2023, jornalistas da AFP testemunharam a saída de diversas comunidades beduínas da Cisjordânia sob pressão de grupos de colonos, como a de Ras Ein al-Auja, no início de 2026.
"Os colonos destruíram completamente o modo de vida beduíno, aniquilaram sua cultura e identidade", afirmou Farhan Jahaleen, morador dessa comunidade.
A secretária-geral da Anistia Internacional também direcionou um alerta aos líderes mundiais: "Dirigimo-nos aos líderes mundiais que dizem se opor à anexação, mas nada fazem para impedi-la: saibam que sua inação alimenta diretamente crimes contra a humanidade".
Em comunicado, Agnès Callamard acrescentou que "os Estados, particularmente aqueles com influência sobre Israel, devem proibir imediatamente todo comércio, investimento, cooperação ou assistência financeira que contribua para a ocupação ilegal promovida por Israel, o sistema de apartheid e a limpeza étnica dos palestinos".
Em maio, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos já havia denunciado sinais de "limpeza étnica" na Cisjordânia, reforçando as preocupações levantadas agora pela Anistia Internacional.