Mendonça vai aos holofotes como relator sobre Dark Horse

Foto: Carlos Moura/STF
Ministro do STF deve assumir investigação sobre financiamento do filme de Bolsonaro envolvendo o banco Master e Daniel Vorcaro
André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, deverá assumir sozinho a relatoria de um pedido de investigação sobre o financiamento do filme "Dark horse", obra que romantiza a trajetória de Jair Bolsonaro com contornos ficcionais. O financiamento envolve Daniel Vorcaro e o banco Master, e o caso se insere no que tem sido chamado de maior escândalo do sistema financeiro brasileiro.
A situação coloca o ministro em uma posição delicada, no centro de um dos processos mais sensíveis do momento. André Mendonça já é relator dos inquéritos que apuram as fraudes do Master, de Vorcaro, de sócios e familiares. Com a tendência de que as apurações sobre os milhões de reais destinados ao filme também caiam em suas mãos, o ministro, que vinha sendo visto como protagonista de um avanço sobre o centrão, passa, nas palavras do próprio cenário político, de vitrine a vidraça.
Como revelou a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde no último fim de semana, já circulam questionamentos sobre a atuação de André Mendonça. A principal pergunta é: por que não houve operação em torno do financiamento milionário de "Dark horse"? O silêncio em torno dessa questão alimenta suspeitas e pressões de diferentes flancos. Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL-RJ e que chegou a chamar Vorcaro de "irmão" antes de cobrar o pagamento de faturas atrasadas ao filme, reagiu às perguntas da jornalista nas redes sociais com um argumento que não se sustenta.
Segundo ele, tudo se trataria de uma operação entre entidades privadas e, portanto, não caberia investigação. A premissa, porém, é falsa. Desde 2024, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal atestam que o Master só sobreviveu graças a governadores e prefeitos que alocaram recursos de servidores públicos e aposentados em suas carteiras de investimentos. O maior responsável por esse movimento, usando o chapéu alheio, foi o ex-governador Claudio Castro, do PL do Rio, hoje investigado, inelegível e distanciado do outrora aliado inseparável da família Bolsonaro.
A investigação sobre o filme esteve "disputada" entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. A direita pode ter interpretado como vitória o fato de a Procuradoria-Geral da República opinar que o caso não cabe ao seu principal adversário no STF. No entanto, essa leitura pode se revelar equivocada. Moraes não precisava de mais um processo para ser acusado de parcialidade. André Mendonça, por sua vez, pode ter acabado de ganhar o seu. A pressão pública, como se sabe, é implacável dos dois lados.