Mendonça e Gilmar divergem sobre prisões dos Vorcaro

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ministro vence julgamento e mantém Henrique Vorcaro preso, enquanto enfrenta Gilmar Mendes e alerta sobre "contornos de máfia" no caso
O ministro André Mendonça saiu vitorioso no julgamento que decidiu pela manutenção da prisão preventiva de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. A decisão também manteve preso o sobrinho de Henrique. O resultado reforça o andamento das investigações sobre o que o ministro classificou como uma organização com "contornos de máfia".
Segundo informações reveladas pela Polícia Federal durante o julgamento, Henrique Vorcaro teria comprado o silêncio da irmã de um sicário — cuja morte por suicídio foi atestada pelo próprio André Mendonça — e de outros parentes do chefe dos milicianos que atuavam para Daniel Vorcaro, grupo conhecido como a "Turma". Além disso, Henrique supostamente mantinha infiltrados na PF com acesso aos sistemas internos da corporação para obter informações sensíveis. O julgamento também foi marcado por um confronto direto entre André Mendonça e o ministro Gilmar Mendes.
O decano sinalizou sua intenção de questionar o processo, numa estratégia que, segundo observadores, se assemelha à utilizada contra a Lava Jato, transformando réus em supostas vítimas de abusos de autoridade e procedimentos ilegais — incluindo ministros suspeitos próximos a ele. André Mendonça respondeu com firmeza. Rejeitou a acusação de que estaria usando prisões preventivas para forçar delações, afirmando que não se prestava a "trabalhos abjetos". Também destacou que não tomava decisões sigilosas, que havia recusado uma delação seletiva e que estava monitorando tentativas de encontrar nulidades no processo.
Em suas palavras: "A defesa até apresentou proposta de delação. Eu não quis acessar, ministro Gilmar. Até porque parece haver setores atuando para criar um vício. Tudo o que querem é criar um vício (no processo sob sua relatoria). Há um sistema articulado para isso. Eu não sou cego: estou acompanhando os movimentos."
Sem meias palavras, André Mendonça foi categórico ao caracterizar a natureza dos crimes investigados: "Não é simplesmente crime do colarinho branco, é mais que isso. Não são simplesmente atores em um gabinete na Faria Lima, nos palácios, que praticaram fraude ou crimes de corrupção, de lavagem de dinheiro, de prejuízo ao sistema financeiro, de dilapidação de fundo garantidor das poupanças. Aqui, há contornos de máfia, há contornos de crimes organizado mafioso."
O ministro ainda deixou uma advertência ao revelar que determinou a quebra de sigilo dos dados do iCloud do sicário, sinalizando que "tem mais coisa por vir". André Mendonça reconhece que ocupa o que ele mesmo chama de "o polo mais frágil" do processo, ponderando que seria "muito simples acabar com a investigação". Ele enfrenta resistências no STF, na Procuradoria-Geral da República sob Paulo Gonet e, em menor grau, na própria PF. S
em perspectiva de delações no horizonte imediato, André Mendonça terá de se apoiar nos aliados de sempre para garantir que as investigações avancem sem poupar ninguém e que os integrantes da suposta máfia de Vorcaro sejam devidamente responsabilizados. Como nota adicional, fotos de Ciro Nogueira em companhia de Daniel Vorcaro, que constam de relatório da PF, já seriam, por si só, suficientes para que os pares do senador considerassem abrir um processo de cassação.