Mulher que fingiu ter 12 anos viveu dois anos em BH

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Amanda Maria Souza de Oliveira, suspeita de ter 37 anos, foi acolhida por projeto social em BH e indiciada por falsa identidade e estelionato
Amanda Maria Souza de Oliveira, suspeita de ter 37 anos e de fingir ser uma criança de 12 anos, viveu por cerca de dois anos e meio em Belo Horizonte e na Região Metropolitana. Indiciada por falsa identidade e estelionato na última sexta-feira (5), ela foi acolhida em 2017 pelo projeto ComPaixão, coordenado pela assistente social Delma Soares, onde permaneceu por aproximadamente um ano e meio. As informações são da Itatiaia.
Delma contou que conheceu Amanda em Contagem, após uma palestra. Na época, a mulher se apresentava com o nome de "Karolina". "Ela pegou meu cartão, que foi dado no final da palestra para pessoas que queriam se voluntariar, ajudar a instituição. Ela entrou em contato comigo por meio de áudio, perguntando se eu era a pessoa que ajudava as pessoas em prostituição e abuso infantil (...) Eu respondi que sim, marquei um encontro com ela no outro dia, com uma delegada parceira da instituição. Fizemos o pré-atendimento dela, como fazemos com qualquer outra pessoa que procurar ajuda no Projeto ComPaixão", relatou Delma.
Alguns meses depois, a coordenadora do projeto começou a notar que Karol, como ficou conhecida em BH, apresentava traços de adulta. "Eu percebi que tinha alguns traços, algumas coisas que eram estranhas, mas ela tinha a postura e o comportamento de uma adolescente. Não essa de hoje, de mamadeira, essas coisas que tem se falado muito nas redes sociais. Mas ela era uma adolescente, sim, com traços. Só gostava de vestir roupa de criança, com desenhos infantilizados", explicou a assistente social.
A convicção de que Karol mentia sobre a idade surgiu para Delma no Natal de 2017, quando a convidou para passar o feriado em sua casa. A coordenadora precisou viajar a Vitória para visitar um irmão que adoeceu gravemente, e foi nesse momento que o comportamento de Amanda mudou de forma reveladora. "Quando fui comunicar para ela que eu ia entregar ela de volta para o abrigo, descaracterizou esse personagem. Aí ela conversou como uma pessoa normal, se comportou com uma mulher adulta. Onde ela foi passando, foi quebrando minhas coisas, amassou meu portão todo. E ali eu pude ter a convicção, só não tinha como provar", contou Delma.
Ao descobrir a farsa, Delma afirma ter seguido todos os trâmites legais para denunciar o caso às autoridades. "Na época, todos os trâmites legais que eu teria que fazer, como qualquer outra instituição, foram feitos. Buscar o conselho tutelar, rede de proteção, denunciar na Promotoria, tudo foi feito de acordo com todo o processo, tudo certinho", disse. No entanto, as investigações não avançaram como esperado. "Mas, como era uma situação que aparentemente era considerada muito grave, começou um processo de investigação. Mas depois ele se perdeu diante do tempo. É lamentável o ocorrido", lamentou a assistente social.
Delma também aproveitou a entrevista para fazer um alerta diante da repercussão do caso nas redes sociais. "Eu tenho visto muitos memes, pessoas brincando muito com a situação, criticando muito as famílias que já acolheram essa menina, as instituições que já acolheram ela. Mas eu também deixo claro o seguinte: a gente recebe qualquer pessoa, independentemente do contexto, da situação. O nosso foco e objetivo é tentar ajudar essa pessoa a recomeçar, a ter uma dignidade de vida, a estabilizar emocionalmente a vida dessa pessoa para fazer um planejamento futuro para ela", destacou. "Independente da situação, se foi tudo uma farsa ou não, a instituição já ajudou muitas pessoas nessas condições, e até em condições piores. Não significa que fomos enganados. Fizemos o que faríamos com qualquer outra mulher (...) Ela passou por diversas instituições, diversas famílias, e nunca foi se tratar da saúde mental dela", finalizou Delma.
O inquérito que investigou Amanda foi concluído pela Polícia Civil de Santa Catarina. A suspeita foi indiciada por falsa identidade e estelionato. Ela se apresentava como uma criança, vestia-se de forma infantil, usava laços no cabelo e chegava a fazer uso de mamadeira. No caso mais recente, Amanda utilizava o nome falso de "Gabriele", e sua prisão foi efetuada na residência das vítimas, no distrito de Pirabeiraba, na Região Norte Catarinense.
Para sustentar o disfarce e ganhar a confiança das famílias, Amanda alegava falsamente ser portadora de autismo e de outras condições clínicas, justificando sua aparência adulta com a alegação de que seus traços eram decorrentes do uso forçado de hormônios durante a infância. A investigação apontou que Amanda confessou ter aplicado golpes semelhantes em Curitiba, Nova Iguaçu e em outros estados, incluindo Minas Gerais, Goiás e Ceará.
Em Santa Catarina, há ainda apurações sobre casos em Florianópolis e Chapecó. Antes do episódio em Joinville, Amanda passou por Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, onde afirmou ter 18 anos e recebeu apoio, em 2024, na Casa de Acolhimento Rosa Mística, instituição que presta assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade social. O inquérito foi encaminhado à Justiça, e o Ministério Público de Santa Catarina decidirá se apresenta denúncia. A defesa aguarda a realização de um exame psiquiátrico autorizado pela Justiça para se manifestar sobre o caso.