Morre Alan Greenspan, ex-chefe do Fed, aos 100 anos

Alan Greenspan conduziu a política monetária dos Estados Unidos por cinco mandatos como presidente do conselho do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA - Imagem: Yuri Gripas
Ex-presidente do Fed por 18 anos, Alan Greenspan foi chamado de "maestro" da economia, mas teve legado reavaliado após a crise de 2008
O economista Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, morreu aos 100 anos. A morte foi anunciada nesta segunda-feira (22/06) por sua esposa, Andrea Mitchell, correspondente da emissora NBC News em Washington.
Greenspan comandou o Fed por 18 anos e meio, tornando-se uma das figuras mais influentes da economia americana do século XX. "Alan faleceu em nossa casa nesta manhã, aos 100 anos, em decorrência de complicações do mal de Parkinson", afirmou Mitchell em comunicado divulgado pela emissora. "Ele foi um homem gigante, que ajudou a moldar a economia dos Estados Unidos por décadas sob presidentes de ambos os partidos, mas sempre foi honesto ao reconhecer seus erros", acrescentou.
Anos prósperos e momentos de crise
Principal formulador da política econômica de sua época, Alan Greenspan esteve à frente da autoridade monetária americana de 1987 a 2006, sob quatro presidentes de ambos os partidos: Ronald Reagan, George H.W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush. Era frequentemente apontado como a segunda pessoa mais poderosa do país, logo após o presidente, devido à capacidade do banco central de influenciar a economia por meio de alterações nas taxas de juros de curto prazo.
Grande parte de seu mandato coincidiu com a segunda expansão econômica mais prolongada da história dos EUA, uma década ininterrupta de crescimento entre março de 1991 e março de 2001. Alan Greenspan foi notavelmente bem-sucedido naquilo que considerava a principal tarefa de um banqueiro central: manter a inflação sob controle. Sua decisão de deixar a economia seguir aquecida, apesar da pressão para elevar as taxas de juros diante de uma ameaça inflacionária que nunca se concretizou, ajudou a impulsionar anos de prosperidade e lhe rendeu o apelido de "maestro" da economia.
Sua avaliação à época era de que um aumento de produtividade manteria a inflação sob controle. No entanto, mesmo tendo administrado com habilidade as taxas de juros, Alan Greenspan relutou em enfrentar um risco que ele próprio reconhecia: o fato de que o ambiente de baixa inflação e crédito fácil que ajudou a criar colocava os EUA em perigo ao alimentar ciclos insustentáveis de investimento.
Críticos atacaram suas políticas ao afirmar que elas alimentaram uma série de bolhas de preços de ativos e prepararam o terreno para a crise financeira de 2008. Alan Greenspan também foi criticado por hesitar em agir à medida que bancos e instituições financeiras adotavam técnicas cada vez mais complexas de negociação, que mais tarde causariam grandes prejuízos.
Em um de seus livros, lançado em 2013, argumentou que as previsões econômicas tradicionais não conseguiam acompanhar a tomada de riscos irracionais que podem alimentar bolhas de preços catastróficas, como a ocorrida em 2008.
Do jazz à economia
Filho de um corretor de valores, a vida de Alan Greenspan antes das finanças foi marcada pela música. O economista nova-iorquino estudou clarinete na prestigiada Juilliard School e fez turnês profissionais pelos EUA tocando saxofone e clarinete na big band do trompetista Henry Jerome.
Depois de viajar pelo país, ingressou no curso de Ciências Econômicas, no qual se graduou em 1948. Em 1968, tornou-se assessor da campanha presidencial do candidato republicano Richard Nixon e, após ocupar diferentes cargos nos governos Nixon, Ford e Reagan, foi nomeado por este último para o comando do Fed.
Após 18 anos e meio à frente do banco central, Alan Greenspan continuou a acompanhar os dados econômicos e liderava sua própria empresa de consultoria, a Greenspan Associates, com forte clientela em Wall Street. Escreveu suas memórias e outros dois livros sobre economia, além de ser figura constante na mídia em debates e colunas de opinião. Mais recentemente, defendeu a independência política do Fed dos ataques contínuos do presidente dos EUA, Donald Trump.
Alan Greenspan deixa um legado complexo: celebrado como "maestro" da economia americana durante anos de prosperidade, mas com sua reputação reavaliada após a crise financeira de 2008, que expôs as fragilidades das políticas que ajudou a construir.