
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
A justiça israelense prorrogou até o próximo domingo (10/5) a prisão preventiva do ativista brasileiro Thiago Ávila e do espanhol Saif Abu Keshek, detidos após a interceptação das embarcações da "Flotilha de Gaza" na costa da Grécia. A decisão foi anunciada durante audiência judicial realizada nesta terça-feira (5/5) em Ashkelon, no norte de Israel, onde os dois ativistas permanecem detidos. Enquanto os demais participantes da flotilha foram enviados de volta à Grécia, Thiago Ávila e Keshek foram os únicos mantidos sob custódia israelense.
No total, 20 embarcações foram interceptadas. Keshek é suspeito de filiação a uma organização terrorista, segundo o Ministério das Relações Exteriores de Israel, enquanto Thiago Ávila responde por suspeita de "atividade ilegal". O Ministério das Relações Exteriores israelense declarou à RFI que "Ávila expressou publicamente apoio a diversas organizações terroristas, incluindo o Hezbollah, o Hamas e o regime iraniano". O ministério acrescentou que Thiago Ávila compareceu, em fevereiro de 2025, ao funeral do secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, morto por Israel no final do ano anterior. Segundo a mesma nota, "Ávila foi implicado em múltiplas alegações de corrupção e enfrentou acusações de conduta inadequada com mulheres que participavam da flotilha.
Ele também foi detido brevemente para interrogatório nos últimos meses em aeroportos da Bélgica, Panamá, Tunísia e Argentina". Os governos do Brasil e da Espanha reagiram com firmeza à situação. Em nota conjunta, os Ministérios das Relações Exteriores dos dois países descreveram o caso como "sequestro" de seus cidadãos e exigiram providências imediatas: "Os governos do Brasil e da Espanha exigem do governo de Israel o retorno imediato de seus cidadãos, com plenas garantias de segurança, e que se facilite o acesso consular imediato para sua assistência e proteção".
A Adalah, organização israelense de direitos humanos responsável pela defesa dos dois ativistas, denunciou que ambos estão sofrendo maus-tratos e abusos psicológicos. De acordo com as advogadas da organização, Thiago Ávila relatou ter sido submetido a interrogatórios de até oito horas de duração. Os interrogadores teriam ameaçado explicitamente o brasileiro, afirmando que ele seria "morto" ou "passaria cem anos na prisão". Os dois ativistas são mantidos em isolamento total, em celas com iluminação constante de alta intensidade durante 24 horas por dia, prática reconhecida do Serviço Prisional Israelense e projetada para induzir privação de sono e desorientação.
A RFI conversou com Lubna Tuma, advogada da Adalah responsável pela defesa de Thiago Ávila. Ela explicou que a organização continua a exigir a libertação imediata dos dois ativistas e o encerramento dos procedimentos legais. Segundo Tuma, a acusação israelense imputa a Thiago Ávila cinco ofensas de segurança enquadradas na lei antiterrorismo do país, incluindo filiação a organização terrorista e assistência ao terrorismo durante período de guerra. "É importante deixar claro que a acusação está buscando enquadrá-lo como alguém realmente perigoso. Isso é uma tentativa de exagerar a situação", afirmou a advogada. Caso condenados, os ativistas podem cumprir penas que variam entre cinco e mais de 20 anos de prisão. Israel, por sua vez, defendeu a interceptação das embarcações em águas internacionais, alegando que a ação ocorreu em razão do "grande número de embarcações" e da "necessidade de evitar o rompimento de um bloqueio legal", em conformidade com o direito internacional.
Sobre as denúncias de violência, o ministério israelense afirmou à RFI que se tratam de "alegações falsas e infundadas preparadas previamente" e que Thiago Ávila e Keshek "não foram submetidos à tortura em momento algum", acrescentando que os ativistas causaram "obstrução física contra funcionários israelenses", que "tiveram de agir para impedir tais ações". O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou à RFI estar "prestando toda a assistência consular ao cidadão brasileiro e acompanhando as audiências na Justiça". A Espanha foi ainda mais contundente, classificando a prisão, ocorrida em águas internacionais e a centenas de quilômetros do território israelense, como "completamente ilegal" e "inaceitável", e afirmando que Israel não apresentou "nenhuma prova" de vínculos com o Hamas. A flotilha contava inicialmente com cerca de 50 embarcações e tinha como objetivo, segundo seus organizadores, romper o bloqueio israelense à Faixa de Gaza, território palestino devastado pela guerra onde o acesso à ajuda humanitária segue fortemente restrito.