
A promessa de maior acessibilidade às "canetas emagrecedoras" no Brasil ganhou força com a recente quebra de patente da semaglutida, que pode reduzir os preços em até 30%. No entanto, essa perspectiva positiva caminha lado a lado com um cenário preocupante: a manipulação clandestina de substâncias para emagrecimento. Em Minas Gerais, onde a obesidade já atinge mais de 34% da população adulta, a Polícia Civil (PCMG) acendeu o alerta para o chamado "fracionamento caseiro", prática ilegal que barateia o custo dos medicamentos, mas coloca vidas em risco.
O caso mais recente envolve a prisão, na quarta-feira (29/04), de uma ex-servidora em Santa Luzia que, sem qualquer formação técnica, confessou ter aprendido a manipular e revender doses de medicamentos para emagrecer por meio de tutoriais em redes sociais. Essa precariedade das vendas clandestinas ignora o fato de que, por trás da busca pela perda de peso, existem condições clínicas que exigem rigor farmacêutico.
O Ozempic, à base de semaglutida, teve a patente quebrada no fim de março. Na prática, a farmacêutica Novo Nordisk perde o monopólio sobre a produção da substância. Isso deve reduzir em até 30% o valor dos medicamentos com esse princípio ativo ao longo dos próximos meses. Laboratórios nacionais já sinalizaram interesse em produzir versões biossimilares.
O efeito principal da semaglutida é aumentar a saciedade e reduzir o apetite. Inicialmente indicado para diabetes tipo 2, o medicamento ganhou aval técnico no tratamento da obesidade. Em Minas Gerais, a condição atinge três em cada dez adultos e segue em alta. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) mostram que o percentual passou de 30,6% em 2020 para 34,2% em 2025.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a obesidade é uma doença crônica associada a problemas como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, apneia do sono e alterações metabólicas.
Respeito à indicação médica e ao acompanhamento profissional
Para quem, desde a infância, acumula dezenas de tentativas frustradas de emagrecimento com o uso de ansiolíticos, moderadores de apetite e fitoterápicos, a percepção agora é de "resultados consistentes" no tratamento, mas com a certeza de que o acompanhamento médico é indispensável.
Canetas clandestinas na mira das autoridades
A comercialização irregular de medicamentos usados para emagrecimento tem mobilizado as forças de segurança em Minas Gerais. Investigações apontam a venda de produtos sem autorização sanitária, sem comprovação de origem e, em alguns casos, trazidos ilegalmente do exterior.
Em janeiro, a Polícia Civil de Minas Gerais prendeu um homem de 31 anos, em Belo Horizonte, suspeito de obter de forma fraudulenta e revender ilegalmente canetas injetáveis para perda de peso, além de anabolizantes. Parte dos produtos apreendidos não tinha registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Em outra frente, a corporação deflagrou, em dezembro, a operação Black Pen, em Montes Claros, no Norte do Estado, para combater o comércio irregular de canetas e ampolas emagrecedoras. A ação resultou na prisão em flagrante de uma mulher de 40 anos e na apreensão de nove ampolas de medicamentos proibidos.
Segundo a Polícia Civil, a comercialização, importação ou distribuição de medicamentos sem registro ou autorização da autoridade sanitária pode configurar crimes como contrabando e delitos contra a saúde pública, especialmente quando há falsificação, adulteração ou venda de produtos sem controle regulatório. As penas variam conforme o enquadramento legal e podem incluir prisão, além de sanções administrativas, como apreensão de produtos, multas e interdição de estabelecimentos.
A corporação afirma que atua de forma contínua no combate à importação e à venda ilegal desses medicamentos, inclusive quando comercializados pela internet ou ofertados em clínicas e estabelecimentos irregulares.