
© Rafael Nunes
O histórico do PT revela que substituir governadores petistas com direito à reeleição por outros nomes do partido já gerou resultados eleitorais desastrosos para a legenda. O caso mais emblemático ocorreu no Rio Grande do Sul em 2002, quando o partido vetou a tentativa de reeleição do então governador Olívio Dutra e apostou em Tarso Genro como candidato. À época, a decisão provocou forte desgaste interno. Olívio governava o estado desde 1999 e era um dos principais quadros petistas no Sul, querendo disputar um novo mandato.
A cúpula do PT, entretanto, avaliou que Tarso Genro, então prefeito de Porto Alegre, teria melhores condições eleitorais e maior capacidade de ampliar alianças. A estratégia, contudo, fracassou: Tarso foi derrotado ainda no primeiro turno por Germano Rigotto (MDB), que venceu a eleição gaúcha. O episódio tornou-se uma espécie de trauma interno no PT e passou a ser lembrado por dirigentes do partido sempre que surge a discussão sobre substituir governadores que podem tentar a reeleição.
Mais de duas décadas depois, a legenda voltou a debater movimentos semelhantes para as eleições de 2026 em estados considerados estratégicos, entre eles Ceará e Bahia. Na Bahia, integrantes do PT admitem, reservadamente, preocupação com o desgaste do governador Jerônimo Rodrigues, que tem apresentado fraco desempenho nas pesquisas. Diante desse cenário, petistas passaram a defender, nos bastidores, a troca de Jerônimo pelo senador Jaques Wagner ou pelo ex-ministro Rui Costa, ambos ex-governadores baianos.
No Ceará, o quadro é semelhante. O governador petista Elmano de Freitas enfrenta dificuldades políticas e queda de avaliação em meio ao avanço da oposição, liderada por Ciro Gomes (PSDB). Diante desse diagnóstico, lideranças petistas no estado passaram a defender que o PT substitua Elmano por Camilo Santana, ex-ministro da Educação e ex-governador cearense. Dirigentes do PT, porém, têm recorrido ao exemplo do Rio Grande do Sul para alertar que repetir a fórmula adotada pelos petistas gaúchos pode representar um risco elevado.
O receio é de que a substituição de governadores com direito natural à reeleição provoque divisões internas, desmobilização da militância e dificuldades para unificar alianças locais. O debate interno no PT sobre Bahia e Ceará reflete a tensão entre a busca por candidatos com maior competitividade eleitoral e os riscos históricos já conhecidos pelo partido ao adotar essa estratégia. O episódio gaúcho de 2002 segue como referência obrigatória nas discussões internas sempre que o tema da substituição de governadores volta à pauta.