
Viaturas da Polícia Civil de Minas Gerais — Foto: PCMG/Divulgação
A Polícia Civil instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra uma servidora investigada pelo suposto desvio de 400 armas de fogo apreendidas na 1ª Delegacia do Barreiro, na região Oeste de Belo Horizonte. A apuração pode resultar na demissão da funcionária, que segue afastada das atividades e usando tornozeleira eletrônica, mas continua recebendo o salário normalmente.
A portaria foi publicada pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil no último sábado (23/5) e aponta que a analista da Polícia Civil e Atividades Governamentais é acusada de descumprir ao menos três deveres previstos no Estatuto dos Funcionários Públicos Civis do estado.
Segundo o documento, ela é investigada por não demonstrar lealdade à instituição, não observar as normas legais e por não zelar pela economia e conservação do material que lhe foi confiado — infrações consideradas passíveis de aplicação da pena de demissão.
A investigação administrativa tramita no âmbito da Corregedoria da instituição. A portaria determina a instauração formal do PAD e designa uma comissão processante formada por delegado, investigador e escrivão para conduzir os trabalhos. O procedimento corre sob sigilo interno e tem como objetivo apurar a conduta funcional da servidora. O documento foi assinado pela corregedora-geral da Polícia Civil, delegada-geral Elizabeth de Freitas Assis Rocha.
O processo interno da Polícia Civil não interfere no processo criminal no qual a servidora já responde pelo crime de peculato na Justiça. Ela é considerada ré após o Judiciário aceitar a denúncia oferecida pelo Ministério Público. A reportagem procurou a Polícia Civil e aguarda retorno.
O esquema de desvio de armas
Uma investigação do Ministério Público de Minas Gerais aponta que o esquema de desvio e comércio ilegal de armas na Região Metropolitana de Belo Horizonte envolvia, além da servidora da Polícia Civil, CACs, armeiros e empresas do setor bélico. A suspeita é de que o grupo atuava de forma estruturada na venda clandestina de armas, munições e acessórios, com divisão de tarefas e intensa movimentação financeira. Conforme documento obtido pela reportagem, a apuração levou a Justiça a autorizar a quebra de sigilo bancário e fiscal de 16 investigados e três empresas citadas no caso — medida considerada essencial para rastrear o fluxo de dinheiro, identificar possíveis laranjas e dimensionar o lucro da atividade criminosa.
A decisão atendeu a pedido do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), no âmbito de um procedimento que investiga a atuação da organização entre janeiro de 2024 e novembro de 2025. Segundo a representação, um dos investigados apontados como líder do grupo usava a condição de CAC para dar aparência de legalidade à compra de grande volume de munições, que depois seriam desviadas para o crime organizado. A investigação também indica que a companheira dele atuava no núcleo de gestão financeira, realizando pagamentos fracionados a integrantes da logística e a empresas de fachada para dificultar o rastreamento dos valores.
A denúncia ainda aponta a existência de um núcleo voltado ao desvio de armas e à corrupção de agentes públicos. Nesse grupo, um armeiro seria responsável por adulterar a numeração de armamentos, enquanto a servidora da Polícia Civil, lotada na 1ª Delegacia do Barreiro, é apontada como suspeita de subtrair armas apreendidas e repassá-las ao esquema. De acordo com o processo, há registros de transferências bancárias superiores a R$ 25 mil feitas por um dos investigados à servidora, sob orientação do armeiro.
No braço comercial da suposta organização, o Ministério Público afirma que empresas do ramo bélico eram usadas para viabilizar a venda de munições, inclusive de calibres restritos. Uma das empresas teria recebido mais de R$ 90 mil em menos de um ano, em operações consideradas incompatíveis com o acervo legal do investigado apontado como comprador.
Outra loja, segundo a apuração, negociava munições de calibres .40 e 9mm por aplicativo de mensagens e recebia valores em contas pessoais para escapar da fiscalização financeira.
A investigação também cita um núcleo logístico e de revenda, responsável por repasses, entregas e intermediação financeira dentro do esquema. Para o Ministério Público, a análise das contas bancárias e das declarações fiscais era a única forma de detalhar o funcionamento da rede, confrontar a movimentação real com a renda declarada pelos envolvidos e apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e sonegação.
Com a decisão judicial, os dados bancários e fiscais dos alvos poderão ser acessados no período delimitado pela Justiça. O processo segue sob sigilo e, na última semana, foi enviado para a 3ª Vara de Tóxicos, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores de Belo Horizonte.