
Foto: Jose Cruz/Agência Brasil
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quarta-feira que os choques de oferta observados no período recente representam um desafio especial para a autoridade monetária, pois afetam a percepção sobre o trabalho da instituição. Segundo ele, os instrumentos disponíveis ao BC foram desenhados para "outro tipo de tempestade", o que torna o cenário atual ainda mais complexo.
Em conferência realizada na sede do Banco Central, em Brasília, Galípolo destacou que o ambiente de incerteza, combinado com um mercado de trabalho aquecido e expectativas de mercado desancoradas no Brasil, exige que a autarquia mantenha vigilância redobrada. "A gente está em um período no qual essas surpresas, intempéries, mudanças no clima e no tempo têm ocorrido em uma concentração muito grande, estamos passando pelo quarto choque de oferta em menos de seis anos", disse Galípolo.
O presidente do BC também ressaltou o impacto acumulado desses eventos sobre a credibilidade das instituições monetárias ao redor do mundo. "Os bancos centrais são desenhados para ter como objetivo uma meta de inflação, e as pessoas convivem com o nível de preços. Após quatro choques, isso vem produzindo uma dissonância que coloca os bancos centrais em uma situação especialmente difícil", completou.
Galípolo explicou que, ao atuar na política monetária por meio da elevação dos juros básicos, o BC encarece o crédito e tende a arrefecer a atividade econômica pela redução do consumo, exercendo um efeito mais direto sobre a demanda. Choques de oferta, como a disparada do preço do petróleo em razão de conflitos internacionais, produzem um desafio distinto, já que não respondem da mesma forma a esse tipo de instrumento.
Na apresentação, Galípolo reafirmou que o BC não irá se desviar de seu objetivo central de controlar a inflação, que no Brasil possui uma meta contínua de 3%. A autoridade monetária vem promovendo cortes graduais da taxa Selic, atualmente em 14,50% ao ano, em um movimento que a instituição tem chamado de "calibração". O BC também alertou que pretende encerrar o ciclo de ajustes com os juros ainda em patamar restritivo, citando a elevação das incertezas diante do conflito no Oriente Médio como fator de atenção adicional.