
Médico ginecologista Felipe Lucas, de 81 anos
O ginecologista Felipe Lucas, de 81 anos, foi preso nesta quarta-feira (6) acusado de estuprar uma paciente que estava em trabalho de parto em Teixeira Soares, na região central do Paraná. O caso se soma a outras três denúncias feitas por mulheres da cidade vizinha de Irati, que relataram ter sofrido abusos sexuais durante atendimentos médicos com o mesmo profissional.
Segundo o delegado Rafael Nunes Mota, a mais recente vítima procurou a polícia após tomar conhecimento das denúncias anteriores por meio de notícias.
No novo caso, Felipe Lucas foi enquadrado no crime de estupro de vulnerável, pois, de acordo com o relato da vítima, o abuso ocorreu durante um exame realizado antes do parto, momento em que a Polícia Civil entendeu que ela se encontrava em posição de não poder oferecer resistência.
Felipe Lucas foi detido em Curitiba e sua prisão é de caráter preventivo, ou seja, por tempo indeterminado. No entanto, em razão da idade do médico, ele pode ser transferido para prisão domiciliar.
Em nota, a defesa alegou entender que "é uma prisão ilegal, sob alegação completamente falsa e de um fato que se encontra prescrito", e afirmou que o médico vai provar a sua inocência no decorrer do processo.
De acordo com a Polícia Civil, os relatos de todas as vítimas são semelhantes e indicam "um padrão de comportamento ao longo de décadas", incluindo o medo das mulheres em denunciar o ginecologista por ele ser médico, ex-deputado estadual, ex-prefeito e ex-vereador de Irati.
"Elas disseram que não procuraram a polícia antes por medo da influência política do autor. Antes achavam que não ia dar em nada se registrassem a ocorrência, mas agora viram que deveriam ter relatado antes", explicou o delegado Luis Henrique Dobrychtop, de Irati.
O delegado considera que o profissional se aproveitou da posição de confiança para praticar atos libidinosos e tentou enganar as vítimas usando supostos procedimentos clínicos como pretexto para os abusos.
"A primeira vítima relatou que, durante o exame, o médico realizou massagens íntimas, alegando ser uma orientação para o estímulo da libido — uma conduta que, segundo especialistas, não tem nenhum respaldo na medicina", justificou o delegado.
A primeira denúncia
A primeira denúncia foi feita por uma mulher de 24 anos, moradora de Teixeira Soares, que foi atendida por Felipe Lucas no início de fevereiro na cidade de Irati, pela rede pública de saúde.
Ela procurou a delegacia sete dias após o exame ginecológico e justificou o tempo de espera pelo "extremo abalo emocional" e pela tentativa inicial de superar o trauma por conta própria.
"Somente após confirmar com outros profissionais de saúde que os procedimentos realizados não eram normais, e diante da persistência de sintomas como insônia e desespero, é que ela decidiu formalizar a denúncia", relatou o delegado.
Além das "massagens íntimas", a vítima afirmou que, enquanto estava despida na mesa de exames, o médico atendeu a uma chamada telefônica pessoal com duração de cerca de cinco minutos, "o que lhe causou ainda mais constrangimento".
A investigação também revelou irregularidades no prontuário eletrônico:
"Ao analisarmos o prontuário eletrônico da instituição, notamos que o médico não fez nenhum registro clínico com anotação sobre esse atendimento, que levanta graves suspeitas sobre a sua conduta. [...] Diferentemente de atendimentos anteriores realizados por outros profissionais, não houve qualquer registro clínico, anamnese ou solicitação de exames por parte do investigado na data do fato", complementou Dobrychtop.
O Consórcio Intermunicipal de Saúde (CIS) Amcespar informou ao g1 que Felipe Lucas solicitou afastamento temporário desde o dia 9 de abril.
As investigações e outras vítimas
Durante as investigações do primeiro caso, foram ouvidas testemunhas, profissionais de saúde, a vítima e o marido dela, que no dia do crime estava na sala de espera da clínica.
O filho da mulher, de cinco anos, também passou por escuta especializada. Segundo a polícia, ele estava presente durante o atendimento e o médico o deixou virado de costas para que não visse o procedimento.
Após a repercussão do primeiro caso, mais duas mulheres procuraram a polícia de Irati. Uma relatou ter sofrido o abuso em 2011 e a outra, em 2016.
Segundo o delegado Dobrychtop, os relatos são detalhados e perturbadores:
"Uma delas chegou a relatar que o médico havia tocado as suas partes íntimas durante cerca de 5 minutos, de forma ininterrupta, massageando de uma forma totalmente inusitada e contrária aos protocolos clínicos, visto que a vítima já havia sido submetida a exames ginecológicos com outros profissionais anteriormente e que, imediatamente ao notar a chegada de outro profissional no recinto, ele acabou mudando bruscamente seu comportamento, tendo cessado o exame."
"A outra vítima relatou que durante um exame pré-natal foram realizados cerca de 10 "exames de toque" em sua área vaginal com periodicidade no máximo 10, 15 minutos, sendo que em determinado momento a vítima falou para esse médico que não suportava mais as dores na área vaginal, porém o médico insistia em continuar."
Embora esses novos relatos não possam gerar novos processos por já terem prescrito, eles serão utilizados no primeiro processo para corroborar a palavra da vítima.
O delegado ressaltou que a convergência de detalhes nos relatos de vítimas que não possuem vínculos entre si é um elemento determinante para a investigação, por demonstrar que "não se tratam de fatos isolados, mas de uma conduta mantida por anos sob o manto da autoridade médica".
A trajetória de Felipe Lucas
Felipe Lucas é médico desde 1975, especializado em ginecologia e obstetrícia, e mantém registro ativo no Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR).
Em 2024, foi homenageado pelo conselho pelo chamado "Jubileu de Ouro", em reconhecimento aos 50 anos de profissão.
Além da carreira médica, ele também é conhecido por sua atuação política: foi vereador e prefeito de Irati nos anos 1990 e deputado estadual por duas vezes. Em 2020, concorreu ao cargo de vice-prefeito, mas não se elegeu.
A primeira denúncia tornou Felipe Lucas réu na Justiça pelo crime de violação sexual mediante fraude.
O pedido de medida cautelar de afastamento das funções e suspensão do exercício profissional foi reforçado pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) e aguarda decisão do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR).
O Conselho Regional de Medicina (CRM-PR) informou, na época, que iria instaurar processo de sindicância para apurar os fatos.