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Nos últimos dias, manchetes sobre um possível "super El Niño" começaram a circular em jornais e redes sociais depois que centros meteorológicos internacionais elevaram a probabilidade de formação do fenômeno climático ainda em 2026.
A NOAA, agência climática dos Estados Unidos, estima hoje mais de 80% de probabilidade de desenvolvimento do El Niño nos próximos meses, enquanto alguns modelos europeus já projetam um aquecimento muito intenso do Oceano Pacífico, semelhante ao observado em grandes eventos históricos.
O tema ganhou ainda mais atenção após análises indicarem que um evento forte poderia aumentar o risco de secas, enchentes, ondas de calor e impactos na produção agrícola em diferentes partes do mundo. Mas afinal: o que é o El Niño? O que diferencia um "evento comum" de um "muito forte"? E o que realmente pode acontecer no Brasil? Confira abaixo um guia completo sobre o fenômeno.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e muda padrões de chuva, temperatura e vento em várias regiões do planeta. Embora aconteça no Pacífico, os efeitos se espalham para diferentes continentes, o que explica por que uma mudança na temperatura do mar próxima ao Peru e ao Equador consegue influenciar o clima no Brasil, na Ásia, na África e até na América do Norte.
Em anos normais, os chamados ventos alísios sopram de leste para oeste sobre o Pacífico, empurrando águas quentes em direção à Indonésia e à Austrália, o que ajuda a manter águas mais frias próximas da costa da América do Sul. No El Niño, esses ventos enfraquecem, e a água quente volta a se espalhar pelo Pacífico central e leste. A atmosfera responde a essa mudança, e todo o sistema climático começa a se reorganizar. É essa "bagunça" atmosférica que altera o regime de chuvas em várias partes do mundo.
O que diferencia um El Niño comum de um "super El Niño"?
A diferença principal está na intensidade do aquecimento do oceano. Os cientistas usam índices baseados na temperatura da superfície do mar para medir a força do fenômeno. Quando esse aquecimento ultrapassa certos limites durante vários meses, o evento passa a ser classificado como moderado, forte ou muito forte.
De forma simplificada, um El Niño considerado muito forte acontece quando a temperatura do Pacífico Equatorial fica mais de 2°C acima da média histórica, como ocorreu nos episódios marcantes de 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Vale destacar que o termo "super El Niño" não é uma categoria científica oficial, sendo usado informalmente por meteorologistas para descrever eventos extremamente intensos.
Já existe um "super El Niño" confirmado para 2026?
Não. O que existe hoje é um cenário de forte probabilidade de formação do El Niño, mas ainda com muita incerteza sobre a intensidade final do evento. A NOAA estima 82% de chance de o fenômeno surgir entre maio e julho, e 96% de chance de ele continuar ativo no fim de 2026 e início de 2027.
Sobre a intensidade, os modelos ainda divergem: alguns centros meteorológicos europeus projetam um aquecimento acima de 3°C em certas simulações, o que colocaria o fenômeno na categoria de muito forte, mas especialistas alertam que ainda é cedo para tratar esse cenário como certo. Em outras palavras, os cientistas sabem que o El Niño provavelmente está a caminho, mas ainda não conseguem afirmar com segurança se ele será moderado, forte ou muito forte.
Por que ainda existe tanta incerteza?
Previsões feitas entre março e maio costumam ser menos confiáveis. Esse período é conhecido pelos meteorologistas como "barreira de previsibilidade", uma fase em que o oceano e a atmosfera passam por uma transição e os modelos climáticos têm mais dificuldade para prever como o sistema vai evoluir nos meses seguintes.
Por isso, muitos pesquisadores afirmam que as projeções devem ganhar mais precisão entre junho e agosto. Além disso, para um El Niño realmente muito forte acontecer, não basta apenas o oceano aquecer: a atmosfera também precisa responder a esse aquecimento. Os cientistas monitoram justamente esse "acoplamento" entre oceano e atmosfera para entender se o fenômeno vai realmente ganhar força.
Como o aquecimento global entra nessa história?
O aquecimento global não causa o El Niño. O fenômeno é natural e existe há milhares de anos. Mas os pesquisadores acreditam que um planeta mais quente pode aumentar a frequência ou a intensidade dos eventos extremos.
Mesmo quando o El Niño tem força parecida com a de décadas atrás, os impactos tendem a ser maiores hoje porque oceanos e atmosfera já estão mais aquecidos pelo efeito das mudanças climáticas.
Na prática, isso significa que ondas de calor podem ficar mais intensas, secas podem durar mais, incêndios podem se espalhar com mais facilidade e chuvas extremas podem provocar impactos mais severos.
Quais são os possíveis impactos no Brasil?
Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país, causando aumento de chuva no Sul com risco maior de eventos extremos, redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste, mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste, e maior frequência de ondas de calor.
Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão. Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima. Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.
Como isso pode afetar comida, energia e abastecimento?
Os efeitos de um El Niño forte podem chegar diretamente ao bolso da população. Na agricultura, mudanças no regime de chuva podem afetar o calendário de plantio e reduzir a produtividade em algumas regiões. No Centro-Oeste, produtores acompanham com atenção o risco de atraso das chuvas, o que pode prejudicar o plantio da soja e encurtar a janela da segunda safra de milho. Já no Sul, o excesso de chuva também pode causar perdas agrícolas e dificuldades na colheita.
Em outros países, o fenômeno costuma afetar culturas como arroz, trigo e milho, especialmente em partes da Ásia e da África, pressionando preços internacionais de alimentos. O setor de energia também entra em alerta porque o Brasil depende fortemente de hidrelétricas. Se reservatórios importantes receberem menos chuva, aumenta a necessidade de acionar usinas térmicas, que são mais caras, o que pode elevar o custo da geração de energia e pressionar a conta de luz.
O El Niño também pode afetar a saúde?
Sim. Ondas de calor mais intensas aumentam riscos para idosos, crianças e pessoas vulneráveis. Além disso, a combinação entre calor, seca e queimadas pode piorar a qualidade do ar em várias cidades. Especialistas também acompanham possíveis impactos sobre doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika e chikungunya, já que mudanças de temperatura e chuva afetam o ciclo do Aedes aegypti.
Dá para impedir ou reverter o El Niño?
Não. O fenômeno é natural e não pode ser interrompido. O que os governos conseguem fazer é reduzir os impactos por meio de medidas como reforço de sistemas de alerta, preparação da Defesa Civil, monitoramento de rios e reservatórios, combate a queimadas, adaptação da agricultura e planejamento para ondas de calor e eventos extremos. Justamente por isso, pesquisadores afirmam que o maior problema não é apenas o fenômeno climático em si, mas a falta de preparação para lidar com ele.
Quando os efeitos podem começar a aparecer?
Os primeiros impactos já podem surgir no segundo semestre de 2026, mas muitos cientistas avaliam que os efeitos mais intensos devem acontecer entre o fim de 2026 e o começo de 2027. Até lá, centros meteorológicos do Brasil e do exterior devem atualizar constantemente as projeções sobre a força do fenômeno. Os próximos boletins da NOAA, do INPE e do Cemaden serão decisivos para indicar se o evento realmente caminhará para um cenário de alta intensidade.