
Dorli Kamkhagi: ''Relações Afetivas''
Em meio aos avanços tecnológicos e às conexões virtuais, especialistas alertam para a importância dos vínculos humanos na construção da saúde emocional e da qualidade de vida
Este mês aconteceu um evento muito importante em São Paulo: o SP Week Innovation. Foi algo incrível em termos de estrutura, palestrantes e tudo o que há de mais relevante surgindo no mercado tecnológico.
A sensação de estar em um lugar onde diferentes saberes se encontravam mostrou o quanto vivemos em um universo no qual nada é mais importante do que o conhecimento humano aliado à possibilidade de oferecer melhores condições de saúde e qualidade de vida.
Ao assistir algumas palestras relacionadas às questões psicológicas e filosóficas, ficou muito marcada a ideia de que a possibilidade de as pessoas construírem vínculos afetivos pode ser, talvez, um dos caminhos para a saúde e para a sobrevivência.
Escutar cientistas, pesquisadores e filósofos reforçou a percepção de que o mundo caminha para uma enorme evolução nas relações virtuais, dentro de tecnologias que nos oferecem inúmeras possibilidades. Mas, por outro lado, se não compreendermos que são as relações pessoais que realmente nos aproximam, corremos o risco de perder aquilo que permite as verdadeiras transformações em nível emocional, social, afetivo e relacional.
Essas reflexões dos palestrantes dialogam profundamente com meus estudos e também com minha visão como psicanalista na prática clínica.
A pergunta que se faz presente é: o que são esses vínculos afetivos e como eles podem se tornar um caminho para o nosso crescimento e estabilidade emocional?
Uma das respostas pode ser pensada no modelo do bebê e da mãe. Ou seja, no vínculo que se desenvolve desde o nascimento, momento em que a criança chega ao mundo em um profundo estado de carência e dependência do outro, seja a mãe, a nutriz, a cuidadora ou o pai.
A criança necessita dessa “mãe suficientemente boa”, segundo o psicanalista Donald Winnicott.
Esse seria um modelo que poderíamos desenvolver ao longo de toda a nossa vida. Somos seres relacionais e, se não conseguirmos construir vínculos afetivos durante nosso percurso, na escola, na adolescência, na vida adulta, na maturidade e no envelhecimento, teremos menos condições de estabelecer relações amorosas e afetivas que se constituem como nosso principal canal de trocas.
É muito sério e preocupante perceber como as pessoas passam seus dias conectadas às redes sociais.
Embora essas conexões sejam importantes, inclusive pelo acesso a conteúdos e pelas possibilidades que oferecem ao nosso modo de estar no mundo, também é necessário haver limites e a percepção de que as verdadeiras trocas acontecem no estar junto e presente: no olhar, no abraço, no toque, na fala e até mesmo nos silêncios compartilhados.
As relações afetivas são, talvez, o significado mais importante de nossas vidas.