
© Marcello Casal JrAgência Brasil
O endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo recorde em abril, segundo dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A proporção de famílias com dívidas subiu de 80,4% em março para 80,9% em abril, superando os 77,6% registrados no mesmo mês de 2024. Os dados são provenientes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela CNC. O relatório da CNC destacou que, apesar do avanço do endividamento, a inadimplência não apresentou deterioração expressiva.
"Os resultados recentes indicam relativa acomodação das condições financeiras das famílias. Embora o endividamento mantenha trajetória de avanço, esse movimento não tem sido acompanhado por deterioração expressiva da inadimplência, que segue relativamente estável, assim como a parcela de famílias sem condições de quitar dívidas em atraso. Além disso, a perspectiva de recuo da inadimplência de longo prazo sugere um perfil de endividamento mais administrável no curto prazo", apontou o relatório da CNC.
A pesquisa considera como dívidas as contas a vencer nas modalidades cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.
A fatia de famílias inadimplentes subiu de 29,6% em março para 29,7% em abril, ante 29,1% registrados em abril de 2024. Já a proporção de famílias que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas em atraso permaneceu estável em 12,3%, mesmo patamar de março e ligeiramente abaixo dos 12,4% de abril do ano anterior. Entre os inadimplentes, 49,5% relataram ter débitos vencidos há mais de 90 dias.
A CNC também informou que "o tempo médio de atraso estabilizou-se em 65,1 dias pelo terceiro mês seguido, refletindo melhora da renda média que ajuda na regularização financeira". O avanço do endividamento em abril foi generalizado entre todas as faixas de renda. No grupo com renda familiar mensal de até três salários mínimos, a proporção de endividados subiu de 82,9% em março para 83,6% em abril. Na classe média baixa, com renda entre três e cinco salários mínimos, o índice avançou de 82,6% para 82,8%.
No grupo de cinco a dez salários mínimos, houve elevação de 79,2% para 80,1%, enquanto nas famílias com renda acima de dez salários mínimos mensais, a fatia subiu de 69,9% para 70,8%. No que diz respeito à inadimplência por faixa de renda, o grupo com renda de até três salários mínimos manteve a proporção de famílias com dívidas em atraso estável em 38,2%. Na classe média baixa, o índice recuou de 28,7% para 28,0%. Já no grupo de cinco a dez salários mínimos, houve elevação de 22,1% para 22,7%, e entre os que recebem acima de dez salários mínimos, a inadimplência subiu de 14,7% para 15%.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, alertou para os riscos do cenário econômico global sobre o endividamento das famílias. "O aumento das incertezas no cenário econômico global levou a uma recente revisão quanto ao ritmo de flexibilização da política monetária no Brasil. A percepção dominante atualmente é que, até o fim do ano, os juros caiam menos que o esperado anteriormente. Se confirmado esse cenário, os níveis de endividamento tendem a se manter em patamares elevados por mais tempo", ponderou Fabio Bentes em nota. O novo recorde de endividamento registrado pela CNC em abril reflete um cenário de pressão financeira persistente sobre as famílias brasileiras, ainda que a inadimplência se mantenha relativamente controlada no curto prazo.