
Claudia Matarazzo: ''O corpo real como referência estética''
Como a moda, a publicidade e o vestir estão abandonando a correção do corpo para celebrar sua verdade
Durante décadas, a estética dominante foi construída a partir de um ideal distante da maioria das pessoas.
A moda, a publicidade e a cultura visual elegeram corpos magros padronizados como referência, criando a ilusão de que beleza era sinônimo de exceção. O corpo real — diverso, mutável e atravessado pelo tempo — foi tratado como algo a ser corrigido, escondido ou ajustado.
Identidade verdadeira - Hoje, esse modelo começa a ser questionado. Não como tendência passageira, mas como necessidade cultural. O corpo real emerge como referência estética legítima, não por militância, mas por representatividade e verdade. Ele representa quem vive, trabalha, envelhece, muda e ocupa o mundo como ele é.
O corpo real carrega história, função e presença. Tem marcas, curvas, assimetrias e ritmos próprios.
O fim da roupa que “emagrece” durante muito tempo a indústria da moda insistia em usar modelos e modelagem como ferramenta de correção: roupas que alongam, disfarçam, afinam, escondem. A ideia da roupa que “emagrece” virou um objetivo quase obrigatório a hora de se vestir. Mas algo vem mudando — e não só na questão estética mas comportamento, percepção e, principalmente, na relação com o próprio corpo.
Mas finalmente estamos vivendo o começo do fim dessa lógica.
Ora, quando a principal função de uma roupa é “corrigir” o corpo, a mensagem implícita é clara: existe algo errado que precisa ser escondido. Isso influenciou gerações a se vestirem pensando primeiro em parecer menores, e só depois em conforto, estilo ou identidade.
Comportamento acompanhando a mudança- a etiqueta contemporânea aponta para uma tendência irreversível: ela vai além das regras e entra no campo do respeito. E começa a propõe um questionamento importante: e se a roupa existir para expressar, e não para diminuir? Afinal, vestir-se bem não deveria ser sobre desaparecer, mas sobre estar presente. Comunicar quem você é, como se sente e como quer ocupar o espaço ao seu redor.
Hoje, elegância está muito mais ligada à coerência, ao cuidado com a imagem pessoal e à autenticidade do que a truques visuais para parecer mais magro. Silhueta deixa de ser prioridade e outras qualidades passam a ter valor.
Isso não significa abandonar cortes estratégicos ou preferências pessoais mas que a motivação muda: você escolhe o que valoriza seu estilo — não o que tenta apagar seu corpo.
Podemos comemorar pois, o fim da roupa que “emagrece” não é sobre abandonar estética. Mas propõe abandonar a ideia de que o corpo precisa ser corrigido para ser aceito.
Elegância real não está no quanto você parece menor. É mais importante parecer segura, confortável e coerente com quem é. Porque a roupa certa não é a que te diminui e sim aquela que te representa.
Hoje as modelagens acompanham o corpo, e não o contrário; tecidos respeitam movimento e conforto; peças são pensadas para a vida cotidiana, não apenas para a imagem idealizada.
O corpo real passa a ser referência e a relação com o vestir se transforma. Vestir-se deixa de ser uma tentativa de encaixe e passa a ser um exercício de escuta. Do corpo, das limitações e do momento de vida. A estética ganha densidade, porque nasce da experiência — não da comparação.
Aceitar o corpo real é aceitar o tempo, o ritmo e as mudanças naturais da existência. É libertar-se e abandonar a ideia de que o valor está na juventude permanente e reconhecer que, postura e coerência constroem beleza com mais força do que qualquer padrão.
Assumir o corpo real como referência estética não é abrir mão da elegância — é redefini-la. Elegância não está em parecer outra pessoa, mas em habitar o próprio corpo com consciência e respeito. Quando a moda, o comportamento e a cultura visual se alinham à realidade, surge uma estética mais honesta, duradoura e humana. Porque o corpo real não é uma concessão: é o ponto de partida.