PF aponta “vínculo próximo” entre Cláudio Castro e Vorcaro

À esquerda, o ex-governador Cláudio Castro; à direita, o ex-banqueiro, Daniel Vorcaro • Foto 1: Philippe Lima Foto 2: Reprodução
PF aponta que Castro mantinha "vínculo próximo" e "alinhamento político" com banqueiro Daniel Vorcaro para viabilizar aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master
A Polícia Federal (PF) aponta que as transferências de R$ 3 bilhões do Rioprevidência para fundos de investimento ligados ao Banco Master dependiam da atuação política do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL).
Na manhã desta terça-feira, 26, Castro foi alvo de mandado de busca e apreensão na oitava fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de manter "vínculo próximo" e "alinhamento político" com o banqueiro Daniel Vorcaro — termos utilizados pela PF no pedido encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) para autorizar a operação.
A defesa de Castro não se manifestou sobre as diligências até a publicação desta matéria.
A decisão do ministro do STF André Mendonça, que autorizou as buscas, indica que Castro "exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes do Rioprevidência no Banco Master".
Na representação, a PF destaca o "sincronismo entre encontros mantidos entre ambos e os aportes financeiros subsequentes do Regime Próprio de Previdência Social, além de conversas encontradas no celular de Vorcaro indicando que a liberação de determinados investimentos dependia de alinhamento político com o ex-chefe do Executivo estadual".
O Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores fluminenses, aplicou R$ 970 milhões em letras financeiras emitidas pelo Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central e suspeita de operar créditos de alto risco.
Esses títulos são papéis de dívida emitidos diretamente pelo banco, sem garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e funcionam como empréstimos feitos por investidores à instituição.
Além disso, a PF apura aplicações de R$ 2,01 bilhões em fundos de investimento ligados ao Banco Master a partir de julho de 2024, somando cerca de R$ 3 bilhões em movimentações sob investigação.
Segundo a Polícia Federal, "a atuação do ex-governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência".
Esse relacionamento, de acordo com os investigadores, "teria viabilizado o alinhamento político necessário para a liberação dos investimentos, bem como a nomeação estratégica de dirigentes do RioPrevidência em cargos-chave (Presidência, Diretoria de Investimentos e Gerência de Investimentos), assegurando que as decisões de credenciamento e de aplicação de recursos previdenciários fossem conduzidas em desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master".
A PF também identificou mudanças na composição da diretoria do Rioprevidência pouco antes do início da série de investimentos no Banco Master.
Além de Castro, foram alvos das buscas nesta terça-feira o lobista Ricardo Siqueira Rodrigues, o ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes, o ex-diretor de Investimentos Eucherio Lerner Rodrigues, o ex-gerente de Investimentos Pedro Pinheiro Guerra Leal e a ex-gerente de Controle Interno e Auditoria Fernanda Pereira da Silva Machado.
Ao todo, foram cumpridos 10 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e no Distrito Federal.
Para a PF, o "sincronismo" entre as reuniões e os aportes financeiros, somado à troca de integrantes da diretoria do fundo, à supressão de etapas técnicas no processo decisório e à ausência de justificativas formais para as operações, reforça a suspeita de interferência política de Castro nas aplicações.
Esta é a segunda vez em 11 dias que o ex-governador é alvo de buscas da Polícia Federal.
No dia 15, no âmbito da Operação Sem Refino — investigação sobre as ligações da gestão de Castro com o Grupo Refit, apontado pela Receita Federal como o maior sonegador de impostos do país —, os agentes apreenderam o celular e o tablet do ex-governador.