
Carolina Sthela Ferreira dos Anjos | Hematoma da vítima (Reprodução/Redes sociais | Divulgação/PCMA)
A Polícia Civil do Maranhão ouviu nesta segunda-feira (11) Yuri Silva do Nascimento, marido de Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, de 36 anos, presa sob suspeita de agredir a empregada doméstica Samara Regina, em São Luís. Yuri prestou depoimento pela manhã, acompanhado de advogado, e foi liberado após prestar esclarecimentos.
Na delegacia, ele afirmou que só soube do caso depois, ao ser chamado pelo irmão de Carolina Sthela. Segundo a investigação, Yuri estava com Carolina Sthela e o filho do casal em Teresina, no Piauí, quando ela foi presa em um posto de combustíveis, cerca de 20 dias após o crime.
O irmão de Carolina Sthela também foi ouvido pela polícia nesta segunda-feira. Ainda esta semana, os quatro policiais militares que atenderam a ocorrência devem prestar depoimento.
Policiais militares sob investigação
Os quatro PMs são investigados por não terem levado Carolina Sthela à delegacia após a denúncia feita por Samara, que havia sido acusada pela patroa de furtar um anel de ouro.
Segundo Samara, os policiais chegaram à residência, conversaram rapidamente com a empresária e, em seguida, a conduziram à Delegacia da Mulher. "Bom, eles chegaram, eles não perguntaram nada. Só pediram o endereço e me levaram até lá, até a casa da Carolina. Eu fiquei dentro do carro enquanto eles iam falar com ela. Depois eles só disseram que iam me levar para a Delegacia da Mulher, só. Falaram mais nada. Durante o caminho eles ficavam me perguntando se eu realmente não tinha pego o anel, se eu tinha certeza", relatou Samara.
A TV Mirante teve acesso a imagens de câmeras de segurança próximas à casa de Carolina Sthela. Os vídeos mostram que, por volta das 10h30 do dia 17 de abril, chegaram ao local o sargento Cerqueira, o cabo Henrique e os soldados De Sá e Yuri. Em áudios obtidos pela investigação, Carolina Sthela descreve a abordagem feita pelos policiais e afirma que recebeu orientações do sargento Cerqueira para não contar que havia agredido a empregada.
Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão, os quatro policiais militares foram afastados das funções nas ruas e uma sindicância foi aberta para apurar a conduta deles. "A responsabilização é de acordo com a atuação de cada um. Então, se é o comandante que foi, que atendeu, que está ali, se tem um policial que fica no comando daquela equipe, essa responsabilidade é maior para ele, porque é ele quem tem o poder de decisão de levar, conduzir ou não, de apresentar a real situação. Esse é o procedimento legal em qualquer atendimento de ocorrência: levar até a delegacia e fazer a apresentação", explicou a coronel Augusta Andrade, secretária de Estado da Segurança Pública do Maranhão.
PM suspeito de participar das agressões
A investigação também aponta a participação do policial militar Michael Bruno Lopes Santos, preso na semana passada. Em áudios, Carolina Sthela relata como ele teria participado das agressões contra Samara. "Ele puxou a bicha (arma), tirou a touca da cabeça dela, pegou no cabelo, botou ela de joelho, puxou a bicha (arma) e botou na boca dela. 'Eu acho bom você entregar logo esse anel!'", diz Carolina Sthela em um dos áudios.
Samara afirmou que teve medo de morrer durante as agressões. "Eu senti medo. Porque não tinha ninguém ali. Só estava eu, ele e a Carolina. E se ela tinha chamado ele, não tinha ninguém para me ajudar", contou.
Michael Bruno Lopes Santos se entregou à polícia na quinta-feira (7). Em depoimento à Corregedoria-Geral da Polícia Militar, negou qualquer envolvimento nas agressões. Já em depoimento à Polícia Civil, apresentou versão diferente e admitiu ter estado na casa e participado das agressões, mas afirmou que a maior parte dos atos teria sido cometida por Carolina Sthela.
O policial disse que conhecia Carolina Sthela há seis anos. Por meio de nota, a defesa de Michael Bruno reforçou que ele não praticou agressões ou atos de violência e que, até o momento, não teve acesso integral aos autos.
Prisão de Carolina Sthela e desdobramentos
Carolina Sthela está presa desde a última quinta-feira (7), quando foi encontrada ao tentar fugir no Piauí. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, ela estava hospedada na casa de um familiar em Teresina. A defesa negou que ela estivesse tentando fugir.
No sábado (10), a advogada Nathaly Moraes deixou a defesa da empresária. Em nota publicada nas redes sociais, ela afirmou que tomou a decisão após sofrer perseguições, ataques pessoais e ameaças contra ela e a família.
Ainda na manhã de sábado (9), a Polícia Civil apreendeu dois veículos deixados em frente à casa de Carolina Sthela — um carro e uma moto, ambos sem placas, que teriam sido abandonados pela empresária e pelo marido antes da fuga para o Piauí.
O Instituto de Criminalística da Polícia Civil confirmou, na sexta-feira (8), que os áudios com supostas confissões de agressões são da empresária, com 100% de compatibilidade entre as gravações e a voz de Carolina Sthela. O delegado Walter Wanderley, da 21ª Delegacia de Polícia Civil do Araçagy, explicou a solicitação da perícia: "Quando ela [Carolina] negou isso no interrogatório dela e para não deixar brecha para a defesa, eu imediatamente mandei que fosse colhida a voz dela ao vivo, natural, para comparar que estava no áudio. O Instituto de Criminalística já me passou a informação que a voz é compatível, a voz dela que foi colhida ontem com a que está no áudio".
Em depoimento, Carolina Sthela afirmou à Polícia Civil que o anel que teria motivado as agressões estava avaliado em R$ 5 mil. A empresária disse ainda que está grávida de três meses e enfrenta problemas de saúde, como pressão alta e infecção urinária. A defesa pretendia pedir prisão domiciliar com base na gravidez, nos problemas de saúde e na necessidade de cuidar do filho.
Crimes investigados e histórico da empresária
Carolina Sthela e Michael Bruno Lopes Santos são investigados pelos crimes de tentativa de homicídio triplamente qualificado, tortura, cárcere privado, injúria, calúnia e difamação. A classificação de tentativa de homicídio triplamente qualificado indica que houve intenção de matar com agravantes, como motivo torpe, uso de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.
Segundo o delegado geral da Polícia Civil, Augusto Barros, o caso segue sob investigação. "A gente está trabalhando com as investigações técnicas que estão sendo realizadas dentro da investigação criminal. A investigação está em curso, apesar da gente ter muitos dados que estão postos e apresentados à sociedade, ainda há outros que dependem de confirmação e que devem acontecer nos próximos dias", disse.
A polícia informou que Carolina Sthela responde a mais de dez processos. Em um deles, de 2024, foi condenada por calúnia após acusar falsamente a ex-babá de roubar uma pulseira de ouro. A pena de seis meses em regime aberto foi substituída por serviços comunitários, além de indenização de R$ 4 mil por danos morais.
A empresária também foi condenada em 2023 por furto qualificado contra a própria irmã, em conjunto com o marido Yuri Silva do Nascimento. Segundo decisão judicial, o casal desviou mais de R$ 20 mil de uma escola de natação em São Luís pertencente a uma irmã de Carolina Sthela.
Samara passou por dois exames de corpo de delito, que confirmaram as agressões. A jovem descreveu os ataques sofridos: "Começou com puxões de cabelo. Eu fui derrubada no chão e passei boa parte do tempo ali. Foram tapas, socos e murros... foi sem parar. Eles não se importavam".
Em um dos áudios, Carolina Sthela afirmou: "Quase uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos. Tudo que vocês imaginarem de doidice, era eu e ele fazendo".
A polícia aguarda ainda o resultado da perícia em um DVR apreendido na casa de Carolina Sthela, equipamento que armazena imagens das câmeras internas da residência e pode ajudar a comprovar as agressões.
Carolina Sthela está presa no Complexo Penitenciário de Pedrinhas e nega as agressões. A defesa afirma que a empresária apresenta transtornos mentais.
No primeiro Dia das Mães após o caso, Samara disse sentir alívio ao saber que ela e o filho, Arthur, de seis meses, estão bem. "Alívio, porque poderia não estar, né? Não estar comemorando se tivesse acontecido algo pior, mas é aliviante saber que está tudo bem", afirmou.
O governador do Maranhão, Carlos Brandão, anunciou que Samara será contratada pelo governo do estado como recepcionista e deverá receber assistência e auxílios.