
Embarcação "Madleen" da Freedom Flotilla (Flotilha da Liberdade) navegando em direção à Faixa de Gaza - © gazafreedomflotilla/Instagram/Arquivo
A polícia israelense forçou ativistas a bordo de uma flotilha de ajuda humanitária a Gaza a se ajoelhar no chão em fileiras, com as mãos amarradas atrás das costas com lacres de plástico, enquanto o ministro de Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, observava a cena.
O episódio ocorreu após a flotilha ser interceptada pelas forças israelenses em águas internacionais na terça-feira e conduzida a um porto israelense, gerando uma onda de críticas de líderes estrangeiros e até de integrantes do próprio governo israelense.
A flotilha, que partiu do sul da Turquia, representava mais uma tentativa de entregar ajuda humanitária a Gaza, enclave devastado pela guerra. Seus organizadores afirmam que o objetivo é romper o bloqueio naval imposto por Israel a Gaza, onde, segundo órgãos humanitários, a assistência ainda é escassa — mesmo com o cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos entre Israel e o Hamas em vigor desde outubro de 2025, que inclui garantias de aumento da ajuda. Israel, por sua vez, sustenta que seu bloqueio naval a Gaza é legal.
Após a detenção dos ativistas — que, segundo os organizadores, somavam 430 pessoas, incluindo cidadãos da Itália e da Coreia do Sul — Ben-Gvir publicou um vídeo no X mostrando policiais forçando uma ativista a cair no chão após ela entoar "Palestina livre, livre". O vídeo também registra dezenas de detidos ajoelhados em filas, no que parece ser uma instalação portuária israelense ao ar livre, com soldados armados patrulhando a área a bordo de um navio militar ao fundo.
"Eles vieram como grandes heróis", disse Ben-Gvir no vídeo, enquanto caminhava pelos ativistas carregando uma grande bandeira israelense. "Olhe para eles agora. Veja como eles estão agora, não são heróis e não são nada."
A postura de Ben-Gvir provocou críticas contundentes até dentro do governo de coalizão de Israel. O ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, repostou o vídeo e acusou Ben-Gvir de prejudicar o país. "Você desfez esforços tremendos, profissionais e bem-sucedidos feitos por tantas pessoas — de soldados da IDF a funcionários do Ministério das Relações Exteriores e muitos outros", escreveu Saar.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defendeu o direito de Israel de interceptar a flotilha, mas afirmou que o tratamento dado por Ben-Gvir aos ativistas "não estava de acordo com os valores e as normas de Israel". Netanyahu disse ainda que havia instruído a deportação dos ativistas o mais rápido possível.
No plano internacional, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, classificou a conduta de Ben-Gvir como "inadmissível". A Itália havia anunciado previamente que cidadãos seus estavam a bordo, incluindo um membro do Parlamento e um jornalista. Meloni e seu ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, exigiram um pedido de desculpas de Israel e anunciaram a convocação do embaixador israelense para dar explicações.
O presidente sul-coreano Lee Jae Myung também se manifestou nesta quarta-feira, referindo-se às ações de Israel como "muito fora da linha". "Qual é a base legal (para as prisões)? São águas territoriais israelenses?", questionou Lee. "É terra israelense? Se houver conflito, eles podem apreender e deter embarcações de outros países?"
A Turquia condenou o que descreveu como abuso contra os ativistas e informou estar trabalhando com outros países para garantir a libertação rápida e segura de cidadãos turcos e de outras nacionalidades. França, Canadá, Espanha, Portugal e Holanda também convocaram os principais diplomatas israelenses em seus territórios em razão do tratamento dispensado aos membros da flotilha.
O contexto humanitário em Gaza permanece crítico. A maior parte dos mais de 2 milhões de habitantes do enclave foi desalojada, e muitos vivem atualmente em ruínas de casas bombardeadas, barracas improvisadas em terrenos abertos, margens de estradas ou sobre os escombros de edifícios destruídos. Israel, que controla todo o acesso à Faixa de Gaza, nega a retenção de suprimentos para os residentes e mantém controle de mais de 60% do território desde o cessar-fogo apoiado pelos EUA em outubro, com o Hamas controlando uma fatia ao longo da costa.