
Carteira de trabalho e desemprego | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Um novo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou uma realidade preocupante no mercado de trabalho brasileiro: quem trabalha mais horas semanais tende a receber salários menores. A pesquisa demonstra que trabalhadores com jornada de 44 horas semanais, comum na escala 6x1, recebem até 58% menos do que aqueles que cumprem 40 horas semanais, evidenciando uma disparidade significativa no mercado de trabalho nacional.
O levantamento do Ipea aponta que essa diferença salarial não se explica apenas pela quantidade de horas trabalhadas, mas também pelo perfil das ocupações. Os vínculos mais longos estão frequentemente associados a empregos que exigem menor qualificação e, consequentemente, oferecem menor remuneração. O modelo 6x1, predominante em setores como comércio e serviços, concentra trabalhadores com menor escolaridade, menor proteção trabalhista e piores condições salariais.
Em contraste, as jornadas reduzidas são mais comuns em ocupações formais que requerem maior qualificação profissional, proporcionando melhores condições de trabalho e remuneração mais elevada. Os dados mostram que a renda média de trabalhadores com jornada de 40 horas semanais gira em torno de R$ 6,2 mil, enquanto aqueles submetidos a 44 horas recebem pouco mais de 40% desse valor.
A disparidade também se manifesta no ganho por hora trabalhada, indicando que profissionais submetidos a jornadas mais extensas não apenas trabalham mais, como também recebem proporcionalmente menos por esse tempo adicional. Esse cenário é ainda mais preocupante quando se considera que a jornada de 44 horas ainda predomina no país, representando aproximadamente três quartos dos vínculos formais, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais).
A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada máxima para 40 horas semanais sem redução de salário tem ganhado cada vez mais relevância no debate público brasileiro. Segundo as análises do Ipea, essa mudança implicaria em um aumento do custo da hora trabalhada, mas em magnitude comparável aos reajustes reais do salário mínimo observados nos últimos anos, que foram absorvidos pelo mercado de trabalho sem impactos significativos sobre o nível de emprego. As estimativas do instituto indicam que a redução da jornada de 44 para 40 horas elevaria o custo médio do trabalho em aproximadamente 7,8%.
Apesar disso, o impacto sobre o custo total das empresas seria limitado, inferior a 1% em setores como indústria e comércio. Especialistas avaliam que parte desse aumento poderia ser compensada por ganhos de produtividade, reorganização de jornadas e redução de custos indiretos, como a rotatividade de funcionários. Além disso, a redução da jornada pode estimular a formalização e melhorar a qualidade do emprego, tornando o mercado mais atrativo para trabalhadores que atualmente se encontram em ocupações precárias.
Para além do debate econômico, a escala 6x1 também tem sido alvo de críticas por seus impactos sociais, como a dificuldade de conciliar trabalho e vida pessoal e o desgaste físico associado a jornadas extensas. Nesse contexto, a discussão sobre a jornada de trabalho transcende questões de produtividade e passa a envolver temas como bem-estar, distribuição de renda e estrutura do mercado de trabalho brasileiro.