
Frank Martins: ''Muitos pediam que Matheus Pereira decidisse jogo grande. Está aí a resposta!''
Camisa 10 celeste voltou a ser decisivo na Libertadores, chamou a responsabilidade contra o Boca e mostrou que protagonismo também se constrói com talento, entrega e personalidade
Cruzeiro e Boca Juniors tinham tudo para fazer, no Mineirão, um daqueles jogos grandes de assistir. De um lado, um clube argentino de camisa pesada, acostumado a noites de Libertadores e a ambientes hostis. Do outro, um Cruzeiro técnico, empurrado por mais de 59 mil torcedores, vivendo novamente uma noite continental em sua casa. O cenário estava pronto para futebol. O problema é que o Boca, mesmo tendo qualidade para jogar, preferiu gastar boa parte da noite tentando impedir que o jogo acontecesse.
A estratégia argentina não é nova. Catimba, reclamação, provocação, cera e tentativa permanente de tirar o adversário do eixo fazem parte de um manual antigo, daqueles que pareciam mais eficientes nos anos 90. Só que o futebol brasileiro aprendeu a lidar melhor com isso. E, desta vez, quem entrou na mente do adversário foi o Cruzeiro. Mais precisamente, Matheus Pereira.
O camisa 10 celeste fez uma partida que explica por que jogadores como ele precisam ser apreciados enquanto estão em campo. Não apenas pelo toque refinado, pela leitura de jogo ou pela capacidade de encontrar um passe onde aparentemente não há espaço, mas também pela postura. Matheus foi competitivo, intenso, provocou quando precisava provocar, suportou a pressão, chamou a responsabilidade e participou diretamente do lance que decidiu a partida. É disso que se cobra um camisa 10 em jogo grande.
Durante algum tempo, houve quem pedisse um Matheus Pereira mais enérgico, mais presente e mais decisivo. Pois a Libertadores tem oferecido a resposta. Ele marcou o gol da vitória contra o Barcelona, balançou a rede contra a Universidad Católica e, contra o Boca, encontrou o passe que desmontou a defesa argentina e abriu o caminho para o gol de Neiser. Nem sempre a estatística fria conta tudo, mas quem assiste ao jogo sabe reconhecer quando uma jogada nasce nos pés de quem pensa diferente.
E Matheus Pereira pensa diferente.
O Cruzeiro, como time, também mostrou sinais importantes. Não foi uma atuação de domínio absoluto, nem uma noite tecnicamente brilhante do início ao fim. Foi, antes de tudo, uma partida de personalidade. A equipe entendeu o tamanho do jogo, não se perdeu completamente nas provocações e soube competir em um ambiente emocionalmente carregado. Em Libertadores, isso vale muito.
Também chama atenção o crescimento de alguns jogadores sob o comando de Artur Jorge. Jonathan Jesus, Fagner, Arroyo e Gerson parecem mais seguros, mais confiantes e mais úteis dentro da ideia coletiva. O Cruzeiro ainda carrega problemas naturais de contexto: sequência pesada de jogos, pouco tempo de trabalho do novo treinador, desgaste físico e resquícios de uma equipe que, há pouco tempo, parecia menos organizada. Mas já se vê um time mais competitivo, mais vivo e mais consciente do que precisa fazer.
A situação do grupo segue equilibrada e difícil. Não existe caminho simples na Libertadores, ainda mais para um Cruzeiro que voltou a disputar esse tipo de jogo grande depois de anos de ausência. Mas a impressão que fica é que a Raposa tem futebol para brigar. Tem qualidade técnica, tem ambiente, tem jogadores crescendo e, principalmente, tem um camisa 10 capaz de decidir.
Agora, é preciso ter inteligência. O Boca já começou a jogar o duelo da Bombonera antes mesmo de deixar Belo Horizonte. A provocação faz parte do plano. O Cruzeiro não pode cair nessa armadilha. Precisa ir à Argentina para jogar bola, competir com coragem e entender que a melhor resposta à catimba continua sendo o futebol.
No fim, a noite no Mineirão deixou uma imagem muito clara: enquanto alguns tentavam transformar o jogo em confusão, Matheus Pereira transformava o jogo em decisão. E isso, para quem gosta de futebol, precisa ser valorizado.
O cruzeirense pediu um camisa 10 que decidisse.
Está aí.
Agora é apreciar.