Governo demite secretário por inclusão da BYD em "lista suja"

byd fábrica
Secretário nacional de Inspeção do Trabalho foi exonerado após inclusão da montadora chinesa na "lista suja" por submeter 224 trabalhadores a condições análogas à escravidão
A montadora chinesa BYD entrou na "lista suja" do trabalho escravo após fiscalização identificar trabalhadores em condições análogas à escravidão na construção de sua fábrica em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. Como consequência, o secretário nacional de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi exonerado do cargo, em uma decisão publicada no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (13). A BYD foi incluída na atualização semestral do cadastro na última segunda-feira (6), após ser considerada responsável direta por submeter 163 trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão.
Com o avanço das investigações, o número total de trabalhadores resgatados chegou a 224, todos envolvidos na construção da fábrica em Camaçari. Dois dias após sua inclusão na "lista suja", a BYD conseguiu uma decisão liminar da Justiça do Trabalho para ser temporariamente retirada do cadastro até o julgamento final do caso. A decisão foi concedida pela 16ª Vara do Trabalho de Brasília (TRT-10), no Distrito Federal.
A Associação Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Anafitra) classificou a exoneração do secretário como uma retaliação. Segundo a entidade, o episódio ocorre "em meio a uma sequência de interferências do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, em processos já concluídos, e representa um grave sinal de retaliação institucional". Rodrigo Carvalho, auditor-fiscal do trabalho e membro da Coordenação Executiva Nacional da Anafitra, expressou preocupação com a situação: "A exoneração de uma autoridade por cumprir a lei é um fato extremamente grave. Isso fragiliza a autonomia da fiscalização e coloca em risco uma política pública construída ao longo de décadas".
A Anafitra já havia entrado com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para declarar a inconstitucionalidade do artigo 638 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que permite que o Ministro do Trabalho assuma processos já concluídos pela fiscalização. De acordo com a associação, esta medida tem permitido retrocessos após a constatação de trabalho escravo por grandes empresas. Durante o processo administrativo, a BYD argumentou que não era empregadora direta dos funcionários, alegando que estes eram contratados por empresa terceirizada.
No entanto, após conclusão dos processos em duas instâncias, com garantia de defesa, a montadora chinesa foi considerada responsável e incluída no cadastro. A atualização da "lista suja" do trabalho escravo, divulgada pelo governo federal através do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), incluiu 169 novos nomes, elevando o total para 613 empregadores. O cadastro reúne informações sobre pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão.