Apesar da desaceleração da atividade econômica, os bancos centrais priorizaram o combate à inflação em meio a choques externos e incertezas geopolíticas

Leonardo Luz: ”Na superquarta, a inflação falou mais alto que o enfraquecimento da atividade econômica”
Apesar da desaceleração da atividade econômica, os bancos centrais priorizaram o combate à inflação em meio a choques externos e incertezas geopolíticas
Na última quarta-feira tivemos mais uma superquarta, quando coincidem as reuniões dos bancos centrais americano e brasileiro para a definição de suas respectivas taxas básicas de juros. Nos EUA, a taxa foi mantida entre 3,5% e 3,75%, ao passo que no Brasil, tivemos corte de 0,25%, atingindo 14,75%. As decisões ocorreram em um cenário macroeconômico marcado por sinais mistos, combinando desaceleração da atividade, inflação ainda acima das metas e um ambiente geopolítico adverso, que pressiona expectativas de crescimento e preços.
Nos EUA, os dados mais recentes reforçam a percepção de enfraquecimento da atividade econômica. O crescimento do PIB foi revisado para apenas 0,7% no quarto trimestre de 2025, bem abaixo das estimativas iniciais de 1,4% e muito distante do ritmo de 4,4% observado no trimestre anterior. O resultado reflete uma desaceleração disseminada, com consumo das famílias, exportações e investimentos mais fracos do que o previsto.
Esse desempenho modesto ocorre em paralelo a um mercado de trabalho que começa a dar sinais de perda de fôlego. A criação de vagas desacelerou de forma consistente em relação ao ritmo observado nos últimos anos, com indicadores apontando níveis significativamente inferiores aos períodos de maior dinamismo pós-pandemia. Ao mesmo tempo, a inflação segue acima da meta oficial do Federal Reserve (Fed). O PCE (Personal Consumption Expenditures Price Index), índice de inflação preferido da autoridade monetária americana, permanece em torno de 2,8% ao ano, acima da meta de 2%, pressionado sobretudo pela alta dos preços de energia.
Essa pressão inflacionária recente está diretamente associada à escalada do conflito no Irã, que elevou os preços do petróleo e deteriorou as expectativas inflacionárias. O agravamento do cenário, somado ao bloqueio do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, introduziu um choque de oferta relevante, sem perspectiva de resolução no curto prazo, deteriorando as expectativas sobre os custos de energia.
O duplo movimento de inflação ainda resiliente e atividade econômica em desaceleração coloca o Fed em uma encruzilhada. De um lado, o enfraquecimento da economia abriria espaço para cortes de juros; de outro, os choques externos elevam a rigidez inflacionária e tornam a condução da política monetária mais complexa. Economistas debatem se os cortes futuros anteriormente esperados serão apenas adiados ou mesmo cancelados, ainda que declarações recentes do presidente do Fed indiquem que o risco de estagflação — combinação de inflação elevada com baixo crescimento ou recessão — passou a integrar explicitamente o radar da instituição. Apesar do risco de estagflação, o Fed desacelerou, indicando que as preocupações com a inflação parecem maiores do que com a atividade. Entretanto, é preciso aguardar a leitura dos comunicados oficiais e, sobretudo, do gráfico de pontos (dot plot), que sintetiza as projeções individuais dos membros do comitê para as taxas de juros futuras, para compreender a estratégia da autoridade monetária nos próximos meses.
No Brasil, o quadro macroeconômico apresenta nuances próprias. Dados recentes do IBGE mostram que a inflação oficial, medida pelo IPCA, acelerou de 0,33% em janeiro para 0,70% em fevereiro, acumulando 3,81% em 12 meses. Já a prévia da inflação, o IPCA-15, avançou de 0,20% para 0,84% no mesmo período, com o acumulado em 12 meses subindo para cerca de 4,10%, sinalizando uma retomada das pressões inflacionárias no início do ano.
É importante notar que os efeitos plenos do conflito no Golfo Pérsico ainda não foram completamente incorporados aos índices de preços, o que sugere a possibilidade de pressões adicionais nos próximos meses. Embora a inflação acumulada em 12 meses ainda esteja relativamente próxima da meta central de 3%, a aceleração recente aumenta o risco de que o índice ultrapasse o limite superior da banda de tolerância.
No que diz respeito à atividade econômica, há sinais claros de desaceleração gradual. Projeções internacionais indicam que, após um crescimento em torno de 2,4% em 2025, o PIB brasileiro deve recuar para aproximadamente 1,7% em 2026, refletindo os efeitos prolongados de juros elevados sobre o investimento e uma confiança empresarial frágil. Ainda assim, o mercado de trabalho permanece relativamente resiliente, com a taxa de desemprego próxima de 5,6% a 5,8%, embora a criação de vagas já mostre sinais de estabilização.
Esse ambiente — inflação e mercado de trabalho ainda resistentes, combinados a um crescimento moderado — ajuda a explicar a postura cautelosa do Banco Central do Brasil ao iniciar o ciclo de cortes de juros. O mercado já havia antecipado e o consenso migrou de uma expectativa majoritária de cortes de 50 pontos-base, para uma projeção de 25 pontos-base, exatamente a decisão adotada pelo Copom. O principal ponto de incerteza agora é o ritmo dos cortes futuros, que deverá ser esclarecido com a divulgação da ata da reunião.
Em ambos os países, no entanto, o fator dominante passou a ser o desfecho da guerra no Oriente Médio e seus impactos sobre os preços de energia. Desde o início do conflito, o preço do petróleo superou a marca de US$ 100 por barril, elevando custos de combustíveis, insumos industriais e transporte, além de gerar pressões inflacionárias secundárias ao longo das cadeias produtivas globais. Trata-se de um choque de oferta que limita a eficácia da política monetária, uma vez que o instrumento de juros atua principalmente sobre a demanda.
A incerteza se intensificou com o bloqueio imposto pelo Irã ao tráfego no Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 25% do petróleo comercializado globalmente. Apesar de ameaças recorrentes em crises anteriores, um bloqueio efetivo dessa magnitude não havia se concretizado, o que sinaliza uma mudança relevante na estratégia iraniana diante das pressões militares. Diante de riscos existenciais, o regime iraniano elevou a aposta, aumentando a chance de que os preços do petróleo permaneçam elevados por um período prolongado.
Do ponto de vista financeiro, a decisão do Fed tende a reverter parcialmente o movimento de enfraquecimento do dólar observado desde o início de 2025, atraindo fluxos de capital para ativos de renda fixa americana. As economias emergentes, que vinham se beneficiando desse ambiente, podem sofrer os efeitos adversos. O Brasil, em particular, poderia se beneficiar do aumento do preço do petróleo, dado seu papel relevante como produtor e exportador global, o que ajudaria a compensar a redução do ritmo de cortes de juros nos Estados Unidos por meio de maior entrada de dólares para a compra de óleo. No entanto, a decisão do governo brasileiro de instituir tributação sobre exportações de petróleo, com o objetivo de compensar a renúncia fiscal sobre combustíveis em prol de conter aumentos significativos de preços em pleno ano eleitoral, tende a reduzir ou anular esse efeito amortecedor. Assim, eventuais pressões cambiais sobre o real podem não ser plenamente neutralizadas.
Em síntese, a superquarta transcorreu sem grandes surpresas. As autoridades monetárias americana e brasileira optaram por priorizar o combate à inflação, mesmo diante de sinais de desaceleração da atividade. As expectativas, contudo, permanecem imersas em elevada incerteza: o rumo da política monetária nos próximos meses dependerá, em grande medida, da evolução do conflito no Golfo Pérsico, que se consolidou como o principal fator exógeno a moldar o ambiente econômico global em um cenário de riscos persistentes e assimétricos.
