A passagem do treinador foi marcada por desconfiança desde o início, e sua saída expõe problemas que vão muito além do banco de reservas

Frank Martins: “Acho que nenhum cruzeirense ficou triste com a demissão do Tite”
A passagem do treinador foi marcada por desconfiança desde o início, e sua saída expõe problemas que vão muito além do banco de reservas
A verdade é simples e talvez até incômoda: acho que nenhum cruzeirense ficou triste com a demissão do Tite.
E não é por falta de respeito à carreira dele, muito pelo contrário. Estamos falando de um dos maiores técnicos da história do futebol brasileiro. Mas, no Cruzeiro, desde o primeiro dia, a sensação era de que aquilo não ia durar. Era como um relacionamento que já começa com data de validade, mesmo que ninguém saiba exatamente quando vai acabar.
A chegada do Tite já veio carregada de desconfiança. Foi uma aposta da diretoria, daquelas que você até entende a lógica, mas não consegue comprar a ideia. E, sinceramente, era visível que a rejeição era enorme. Não tenho números oficiais, mas arrisco dizer que passava fácil dos 90%. Eu mesmo fazia parte desse grupo.
E ainda assim, como todo torcedor, eu torci para dar certo. Porque quando a bola rola, pouco importa quem você gosta ou não. Se veste a camisa do Cruzeiro, a gente apoia. Só que, infelizmente, os métodos não convenceram e os resultados foram ainda piores.
Com a saída, começam a aparecer os bastidores que ajudam a explicar muita coisa. Jogadores reclamando de carga excessiva nos treinos, desgaste físico evidente, um time que até competia no primeiro tempo, mas simplesmente desaparecia no segundo. Isso não era impressão. Era realidade.
E talvez aí esteja um dos grandes erros. O Cruzeiro não fez uma pré-temporada adequada, entrou em um calendário pesado e ainda foi submetido a uma intensidade mal dosada. O resultado foi um time sem perna, sem consistência e, pior, sem confiança.
Mas seria fácil demais colocar tudo na conta do Tite. E seria injusto também. O problema do Cruzeiro é mais profundo.
O torcedor precisa entender que não existe salvador da pátria chegando agora. Não vai aparecer um técnico que, do nada, transforme esse time em campeão da Libertadores, como muitos sonharam no ano passado. Aquilo ali foi exceção, não regra.
O Cruzeiro precisa de algo mais básico e, ao mesmo tempo, mais difícil: reorganização. O elenco precisa de ajustes, de reforços pontuais e, principalmente, de uma renovação. Aquela velha oxigenação que todo time competitivo precisa de tempos em tempos.
E o calendário também não ajuda. O Brasileirão deste ano é longo, desgastante e já acendeu o sinal de alerta. Ainda dá para sonhar com título? Dá. Futebol permite isso. Mas, sendo honesto, é um cenário cada vez mais distante. Já se foi mais de um terço do turno, e isso representa muitos pontos deixados pelo caminho.
Enquanto isso, os concorrentes observam. E o que mais chama atenção é ver um Cruzeiro que terminou o último campeonato brigando na parte de cima agora lutando para sair da zona de rebaixamento. É um contraste duro de aceitar.
Por isso, o próximo passo precisa ser dado com inteligência. O novo treinador precisa chegar o quanto antes, de preferência antes da data FIFA, para ter tempo de trabalhar. Ajustar o sistema defensivo, que hoje é um dos mais frágeis do campeonato. Reorganizar o time taticamente. E, principalmente, recuperar o físico e a confiança dos jogadores.
Não será simples. O prejuízo já foi feito. Mas desistir não é uma opção. Nunca foi e nunca será no Cruzeiro.
E se o nome for mesmo Arthur Jorge, há motivos para acreditar. É um técnico que conhece o futebol brasileiro, já foi campeão, sabe lidar com pressão e tem repertório para organizar um time. Pode ser, sim, uma escolha acertada.
O Cruzeiro precisa de alguém que entenda o momento e tenha coragem para enfrentá-lo. Porque, hoje, o clube vive uma espécie de guerra interna. E sair dela exige mais do que discurso. Exige trabalho.
No fim das contas, o Brasileirão talvez vire um exercício de sobrevivência e reconstrução. Mas ainda há caminhos. Ainda há Copa do Brasil. Ainda há Libertadores.
E se tem uma coisa que o Cruzeiro já provou ao longo da sua história é que, mesmo nos momentos mais difíceis, nunca dá para duvidar do que essa camisa é capaz de fazer.